BRASIL PRA FRENTE

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O RIO DE JANEIRO DE PÉ PELO BRASIL!





















segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

O MACHISMO DA MÍDIA BRASILEIRA

 

Por Fernando Brito, no blog Tijolaço:

Quando eu era um estagiário da editoria de Esportes de O Globo, no final dos anos 70, contava-se a história de que ao descer à redação, coisa que não fazia muito, um dos irmãos de Roberto Marinho – se ainda me recordo, Rogério – perguntou a um velho funcionário do jornal, espantado com a quantidade de mulheres na redação:

- Mas elas se comportam direitinho?
Três décadas e meia depois, o comportamento da imprensa em relação às mulheres que chegam aos cargos de poder político parece lembrar este comportamento.

O Estadão, a partir de uma boa reportagem de Sérgio Torres, onde a futura presidente da Petrobras, Maria das Graças da Silva Foster, é apresentada como uma lutadora, boa mãe e amiga, militante política e até capaz de fazer-se pequenas tatuagens, é chamada de “dama de ferro”;. Expressão, aliás, que o repórter jamais utiliza.

Em outra “reportagem” a coisa é com Dilma. É chamada de autoritária e até – novamente a editoria – tem sua antessala definida como “sala de torturas”, porque todos teriam medo do que irá acontecer ao encontrarem a presidenta. O seu defeito? Ela “se irrita com promessas não cumpridas, projetos que não param em pé, pressão de aliados políticos por cargos no governo e “vazamentos” de notícias. Erros de português e números trocados também a tiram do sério”.

Ora, francamente, era para gostar? Cidadãos adultos, Ministros de Estado, dirigentes de empresas públicas, só porque vão tratar com uma chefe mulher devem esperar, ao deixarem de ser consistentes e competentes, a serem tratados na base do “bilú-bilú”? Isso é uma idiotice total e, que espera algo assim, não deve levar uma, mas duas broncas: além da ineficácia, outra pela visão deformada que têm da condição feminina.

Mas como Dilma e Graça são mulheres, o fato de serem chefes exigentes é – e nem tão veladamente assim – criticado. “Gerentona”, “dama de ferro”, “duríssima”, “exigente” são alguns dos rótulos que lhes pregam.

Ora, as duas têm um trabalho duro, difícil, onde cada erro, além da exposição política, causa prejuízo ao povo brasileiro. Não estão ali por carreira ou brincadeira, nem pelo salário, apenas. Têm uma imensa responsabilidade.

Fossem homens, ninguém iria lhes cobrar gentilezas e rapapés. E é exatamente por esse comportamento machista, que acha que mulheres devem ser “polianas” que, às vezes, até têm de subir uma ou duas oitavas o tom do comando, porque sempre vai haver um bobalhão achando que ordem de mulher não é como ordem de homem e que é possível enrolá-las com “jeitinho”.

Ter chefe exigente e “cobrador” nunca foi problema para ninguém.

Pessoalmente, trabalhei por mais de 20 anos com uma pessoa tida como difícil e autoritária, Leonel Brizola. Nem era, mas também não era “um docinho”, nem deveria ser. Isso nunca me fez mal algum e muito menos me tornou um cordeirinho amedrontado, por duas razões.

A primeira, retidão e lealdade. A segunda, um própósito em comum, como se deve ter quando se está em um projeto de mudança de um país. Levei algumas broncas e “peitei” algumas coisas e ninguém saiu machucado disso. E ele próprio, o mais velho, tomava a iniciativa de minimizar o estrago: “lenha boa é que sai faísca”, dizem bem os gaúchos.

Será que deve ser diferente só porque é uma mulher?

Mas a imprensa, infelizmente, reproduz essa visão machista que deveria ter ficado no passado de um país onde, felizmente, as mulheres começam – e apenas começam – a ter papéis decisórios secularmente “pertencentes” aos homens.

Nossos meios de comunicação, tão “moderninhos” e “politicamente corretos” deviam ter vergonha de pensarem como há 35 anos pensava o irmão Marinho, parte de um tempo no qual o mais importante que se podia dizer de uma mulher era ser “senhora do Fulano de Tal”.

Que vergonha!
 

JUSTIÇA? NAHAS FALIU E MORA EM MANSÃO

 

Por Helena Sthephanowitz, na Rede Brasil Atual:

Em 1989, o mega-especulador Naji Nahas praticamente levou a Bolsa de Valores do Rio de Janeiro à falência. Agora em 2012, ele consegue a proeza de levar a própria Justiça à falência.

Não à falência financeira, muito pelo contrário, pois o Poder Judiciário parece até ir muito bem de caixa, como provam os super-salários de alguns juízes do Rio de Janeiro. O que está ruindo é a própria razão de ser do Judiciário, a capacidade de fazer justiça...


Nahas quebrou a Bolsa do Rio deixando um rastro de dívidas que deveria alcançar seus bens. Sua holding Selecta S/A faliu quando seu esquema falhou. A Justiça do Rio de Janeiro condenou o especulador e tipificou o crime como falência fraudulenta. Nahas recorreu ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) e o processo ficou "dormindo" até prescrever, livrando-o da condenação. Um primeiro sinal da falência da nossa Justiça.

Por razões que só o Judiciário e os governos tucanos podem explicar, Nahas fica falido e não é ele quem é despejado de sua mansão. Quem é tirado de suas casas desumanamente são 1,7 mil famílias no Pinheirinho, em São José dos Campos, num terreno que pertencia à Selecta e pelo qual deve milhões de reais em impostos não pagos.

A constatação de que Nahas continua vivendo em sua mansão – com quadra de tênis, piscina e elevador, entre outros luxos –, sem ser despejado, prova que a lei para os ricos é uma, e para os pobres é outra.

O Judiciário pode gastar páginas e mais páginas, recorrendo a leis e mais leis para explicar como essa situação chegou a tal ponto, mas todo esse compêndio não passará dos autos que atestarão a falência da Justiça no Brasil.

Diante disso, fica a pergunta: quem fará a "reintegração de posse" da Justiça para o povo brasileiro?
http://altamiroborges.blogspot.com

CUBA QUE DILMA VISITA

 

Por Emir Sader, no sítio Carta Maior:

Assim que Fidel e seus companheiros tomaram o poder e o governo dos EUA acentuou suas articulações para tratar de derrubar o novo poder, a grande burguesia cubana e uma parte da classe média alta foram se refugiar em Miami. Bastava esperar que mais um governo rebelde capitulasse diante das pressões norte-americanas ou fosse irremediavelmente derrubado. Afinal, nenhum governo latinoamericano rebelde tinha conseguido sobreviver. Poucos anos antes Getúlio Vargas tinha se suicidado e Peron tinha abandonado o governo. Os dois governos da Guatemala que tinham ousado colocar em prática uma reforma agrária contra a United Fruis – hoje reciclada no nome para Chiquita -, sofreram um violento golpe militar.
Como um governo cubano rebelde, em plena guerra fria, a 110 quilômetros do império, conseguiria sobreviver? Cuba era o modelo do “pátio traseiro” dos EUA. Era ali que a burguesia cubana passava suas férias como se estivesse numa colônia sua. Era ali que os filmes de Hollywood encontravam os cenários para os seus melosos filmes sentimentais. Era ali que um aristocrata cubano tinha importado Esther Williams para inaugurar sua casa no centro de Havana, mergulhando numa piscina cheia de champanhe. Era em Cuba que os milionários norteamericanos desembarcavam com seus iates diretamente aos hotéis com cassinos ou às suas casas, sem sequer passar pelas alfândegas. Era ali que os marinheiros norteamericanos se embebedavam e ofendiam os cubanos de todas as formas possíveis. Era para Cuba que a Pan American inaugurou seus vôos internacionais. Era ali que as construtoras de carros norte-americanas testavam seus novos modelos, um ano antes de produzi-los nos EUA. Foi em Cuba que a máfia internacional fez seu congresso mundial no fim da segunda guerra, para repartir os seus mercados internacionais, evento para o qual contrataram o jovem cantor Frank Sinatra para animar suas festas. Em suma, Cuba era um protetorado norteamericano.

Os que abandonaram o país deixaram suas casas intactas, fecharam as portas, pegaram o dinheiro que ainda tinham guardado e foram esperar em Miami que o novo governo fosse derrubado e pudessem retomar normalmente sua vida num país de que se consideravam donos, associados aos gringos.

Há um bairro em Miami que se chama Little Havana, onde os nostálgicos ficam olhando para o sul, cada vez menos esperançosos de que possam retornar a uma ilha que já não podem reconhecer, pelas transformações radicais que sofreu. Participaram das tentativas de derrubada do regime, a mais conhecida delas a invasão na Baía dos Porcos, que durou 72 horas, mesmo se pilotada e protagonizada pelos EUA – presidido por John Kennedy naquele momento. Os EUA tiveram que mandar alimentos para crianças para conseguir recuperar os presos da invasão, numa troca humanitária.

Cuba mudou seu destino com a revolução, conseguiu ter os melhores índices sociais do continente, mesmo como país pequeno, pobre, ao lado dos EUA, que mantem o mais longo bloqueio da história – há mais de 50 anos -, tentando esmagar a Ilha.

Durante um tempo Cuba pode apoiar-se na integração ao planejamento conjunto dos países socialistas, dirigida pela URSS, que lhe propiciava petróleo e armamento, além de mercados para seus produtos de exportação. O fim da URSS e do campo socialista aparecia, para alguns, como o fim de Cuba. Depois da queda sucessiva dos países do leste europeu, a imprensa ocidental se deslocou para Cuba, instalou-se em Havana Livre, ficaram tomando mojitos e daiquiris, esperando para testemunhar a ansiada queda do regime cubano. (Entre eles estava Pedro Bial e a equipe da Globo.)

Passaram-se 23 anos e o regime cubano está de pé. Desde 1959, 10 presidentes já passaram pela Casa Branca e tiveram que conviver com a Revolução Cubana – de que todos eles previram o fim.

Cuba teve que se reciclar para sobreviver sem poder participar do planejamento coletivo dos países socialistas. Cuba teve que fazer um imenso esforço, sem cortar os direitos sociais do seu povo, sem fechar camas de hospitais, nem salas de aulas, ao invés da URSS de Gorbachev, que introduziu pacotes de ajuste e terminou acelerando o fim do regime soviético.

É essa Cuba que a Dilma vai encontrar. Em pleno processo de reciclagem de uma economia que necessita adaptar suas necessidades às condições do mundo contemporâneo. Em que Cuba intensificou seu comércio com a Venezuela, a Bolívia, o Equador – através da Alba -, assim como com a China, o Brasil, entre outros. Mas que necessita dar um novo salto econômico, para o que necessita de mais investimentos.

Necessita também aumentar sua produtividade, para o que requer incentivar o trabalho, de acordo com as formulações de Marx na Critica do Programa de Gotha, de que o principio do socialismo é o de que “a cada um conforme o seu trabalho”, afim de gerar as condições do comunismo, em que a fartura permitira atender “a cada um conforme suas necessidades”.

Cuba busca seus novos caminhos, sem renunciar a seu profundo compromisso com os direitos sociais para toda a população, a soberania nacional e a solidariedade internacional. Cuba segue desenvolvendo suas políticas solidárias, que permitiram o fim do analfabetismo na Venezuela e na Bolívia e o avanço decisivo nessa direção em países como o Equador e a Nicarágua.

Cuba mantem sempre, há mais de dez anos, a Escola Latinoamericana de Medicina, que já formou na melhor medicina social do mundo, de forma gratuita, a milhares de jovens originários de comunidades carentes todo o continente – incluídos os EUA. Cuba promove a Operação Milagre, que ja’ permitiu que mais de 3 mil latino-americanos pudessem recuperar plenamente sua visão.

Cuba é um sociedade humanista, que privilegia o atendimento das necessidades dos seus cidadãos e dos de todos os outros países necessitados do mundo. Que busca combinar os mecanismos de planejamento centralizado com incentivos a iniciativas individuais e a atração de investimentos, na busca de um novo modelo de crescimento, que preserve os direitos adquiridos pela Revolução e permite um novo ciclo de expansão econômica.

Aqueles que se preocupam com o sistema politico interno de Cuba, tem que olhar não para Havana, mas para Washington. Ninguém pode pedir a Cuba relaxar seus mecanismos de segurança interna, sendo vítima do bloqueio e das agressões da mais violenta potência imperial da história da humanidade. A pressão tem que se voltar e se concentrar sobre o governo dos EUA, para o fim do bloqueio, a retirada da base naval de Guantanamo do território cubano e a normalização da relação entre os dois países.

É essa Cuba que a Dilma vai se encontrar, intensificando e ampliando os laços de amizade e os intercâmbios econômicos com Cuba. Não por acaso o Brasil só restabeleceu relações com Cuba depois que a ditadura terminou, intensificando essas relações no governo Lula e dando continuidade a essa política com o governo Dilma.
http://altamiroborges.blogspot.com

GLOBO TENTA IMPLODIR BASE DO GOVERNO

 

Por José Dirceu, em seu blog:

Há muito tempo o jornal O Globo - ninguém sabe de quem parte a iniciativa lá, mas desconfia-se - vem agindo para criar fatos políticos e pressionar governos em determinadas direções. No caso da relação do governo com o PMDB é evidente o esforço do jornal de criar situações que afastem o partido da base aliada. Em relação à Petrobras, seu dia-a-dia, decisões, negócios, rotina administrativa, idem.
No caso da Petrobras, a última de O Globo foi o factóide da demissão de Sérgio Machado da diretoria da Transpetro, empresa integrante da holding da estatal. Já há semanas - antes e depois da mudança na presidência da Petrobras, substituição de José Sérgio Gabrielli por Maria das Graças Foster - o jornal está neste samba de uma nota só em relação a Sérgio Machado.

Já quando o então governador tucano de São Paulo, José Serra, fez um acordo com o PMDB quercista para ter o apoio dele para presidente da República dois anos depois, dando continuidade a aliança que reelegeu em 2008 o prefeito da capital, Gilberto Kassab o que vimos foi um silêncio ensurdecedor não apenas do jornal dos Marinhos, mas de toda a mídia. Kassab se elegeu tendo como vice Alda Marcoantonio do PMDB quercista.

Petrobras necessita de uma reorganização administrativa

Agora, O Globo insiste nessa linha contra governo e Petrobras e faz notícia editorializada no caso da criação pela estatal da diretória corporativa. A diretoria é mais do que necessária e mais do que normal em empresas desse porte. A Petrobras há muito necessita de uma reorganização na sua governança já que praticamente multiplicou por 10 seus investimentos, mas continua com a mesma estrutura de direção e gestão do passado.

O jornalão carioca ainda vem com a história de que o cargo foi criado para atender ao PT, já que o indicado para ocupá-lo é o ex-presidente nacional do partido, ex-senador Jose Eduardo Dutra (PT-SE). Ora, Dutra já foi presidente da Petrobras e da BR Distribuidora. Tem mais do que capacidade e competência, além de experiência para o cargo. Mas, enfim, são coisas de nossa imprensa que mais parece um partido ou um grupo político.

Outra chamada dirigida do jornalão dos Marinhos hoje - "Banco do Brasil muda nove diretorias e abre espaço a partidos" - distorce com objetivos políticos a informação, o fato, a realidade. Todos os indicados para cargos de comando são funcionários de carreira do BB.

Este rodízio é necessário e útil, é uma medida que aumenta a eficiência da gestão e da direção do banco. As razões para as mudanças são públicas e fundamentadas, mas o jornal faz uma chamada eminentemente política.

A VINGANÇA DOS DINOSSAUROS

 

Os leitores se recordam dos anúncios patrocinados pelo governo Collor, quando o caçador de marajás iniciava o processo de entrega dos bens nacionais aos estrangeiros, em nome da modernidade. Os que defendiam o patrimônio público eram desdenhosamente identificados como dinossauros.


Os leitores se recordam dos anúncios patrocinados pelo governo federal durante o mandato de Collor, quando o caçador de marajás iniciava o processo de entrega dos bens nacionais aos estrangeiros, em nome da modernidade. Os que defendiam o patrimônio público eram desdenhosamente identificados como dinossauros, ou seja, animais dos tempos jurássicos. Iniciou-se, com o confisco dos haveres bancários, o processo de desnacionalização da economia, sob o comando da senhora Zélia Cardoso de Melo e do economista Eduardo Modiano, nomeado presidente do BNDES com a missão de desmantelar o setor estatal e entregar suas empresas aos empreendedores privados que se associassem às multinacionais.

Naquela época publiquei artigo na Gazeta Mercantil, em que fazia a necessária distinção entre os dinossauros – uma espécie limpa, sólida, quase toda vegetariana – e os murídeos: camundongos, ratos e ratazanas.

É difícil entender como pessoas adultas, detentoras de títulos acadêmicos, alguns deles respeitáveis, puderam fazer análise tão grosseira do processo histórico. Mas eles sabiam o que estavam fazendo. Os economistas, sociólogos e políticos que se alinharam ao movimento neoliberal – excetuados os realmente parvos e inocentes úteis – fizeram das torções lógicas um meio de enriquecimento rápido.

Aproveitando-se dos equívocos e da corrupção ideológica dos quadros dirigentes dos países socialistas – que vinham de muito antes – os líderes euro-norte-americanos quiseram muito mais do que tinham, e resolveram recuperar a posição de seus antecessores durante o período de acumulação acelerada do capitalismo do século 19. Era o retorno ao velho liberalismo da exploração desapiedada dos trabalhadores, que havia provocado a reação dos movimentos operários em quase toda a Europa em 1848 (e animaram Marx e Engels a publicar seu Manifesto Comunista) e, logo depois, a epopéia rebelde da Comuna de Paris, com o martírio de milhares de trabalhadores franceses.

Embora a capitulação do Estado se tenha iniciado com Reagan e Thatcher, no início dos oitenta, o sinal para o assalto em arrastão veio com a queda do Muro de Berlim, em novembro de 1989 – coincidindo com a vitória de Collor nas eleições brasileiras. Não se contentaram os vitoriosos em assaltar os cofres públicos e em exercer a prodigalidade em benefício de seus associados do mercado financeiro. A arrogância e a insolência, nas manifestações de desprezo para com os pobres, que, a seu juízo, deviam ser excluídos da sociedade econômica, roçavam a abjeção. Em reunião realizada então na Califórnia, cogitou-se, pura e simplesmente, de se eliminarem quatro quintos da população mundial, sob o argumento de que as máquinas poderiam facilmente substituir os proletários, para que os 20% restantes pudessem usufruir de todos recursos naturais do planeta.

Os intelectuais humanistas – e mesmo os não tão humanistas, mas dotados de pensamento lógico-crítico – alertaram que isso seria impossível e que a moda neoliberal, com a globalização exacerbada da economia, conduziria ao malogro. E as coisas se complicaram, logo nos primeiros anos, com a ascensão descontrolada dos administradores profissionais – os chamados executivos, que, não pertencendo às famílias dos acionistas tradicionais, nem aos velhos quadros das empresas, atuavam com o espírito de assaltantes. Ao mesmo tempo, os bancos passaram a controlar o capital dos grandes conglomerados industriais.

Os “executivos”, dissociados do espírito e da cultura das empresas produtivas, só pensavam em enriquecer-se rapidamente, mediante as fraudes. É de estarrecer ouvir homens como George Soros, Klaus Schwab e outros, outrora defensores ferozes da liberdade do mercado financeiro e dos instrumentos da pirataria, como os paraísos fiscais, pregar a reforma do sistema e denunciar a exacerbada desigualdade social no mundo como uma das causas da crise atual do capitalismo.

Isso sem falar nos falsos repentiti nacionais que, em suas “análises” econômicas e políticas, nos grandes meios de comunicação, começam a identificar a desigualdade excessiva como séria ameaça ao capitalismo, ou seja, aos lucros. Quando se trata de jornalistas econômicos e políticos, a ignorância costuma ser companheira do oportunismo. Da mesma maneira que louvavam as privatizações e a “reengenharia” das empresas que “enxugavam” as folhas de pagamento, colocando os trabalhadores na rua, e aplaudiam os arrochos fiscais, em detrimento dos serviços essenciais do Estado, como a saúde, a educação e a segurança, sem falar na previdência, admitem agora os excessos do capitalismo neoliberal e financeiro, e aceitam a intervenção do Estado, para salvar o sistema.

Disso tudo nós sabíamos, e anunciamos o desastre que viria. Mas foi preciso que dezenas de milhares morressem nas guerras do Oriente Médio, na Eurásia, e na África, e que certos banqueiros fossem para a cadeia, como Madoff, e que o desemprego assolasse os países ricos, para que esses senhores vissem o óbvio. Na Espanha há hoje um milhão e meio de famílias nas quais todos os seus membros estão desempregados.

Não nos enganemos. Eles pretendem apenas ganhar tempo e voltar a impedir que o Estado volte ao seu papel histórico. Mas o momento é importante para que os cidadãos se mobilizem, e aproveitem esse recuo estratégico do sistema, a fim de recuperar para o Estado a direção das sociedades nacionais, e reocupar, com o povo, os parlamentos e o poder executivo, ali onde os banqueiros continuam mandando.

Mauro Santayana é colunista político do Jornal do Brasil, diário de que foi correspondente na Europa (1968 a 1973). Foi redator-secretário da Ultima Hora (1959), e trabalhou nos principais jornais brasileiros, entre eles, a Folha de S. Paulo (1976-82), de que foi colunista político e correspondente na Península Ibérica e na África do Norte.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

A VERDADE DE CUBA


NOS últimos dias, a mídia e representantes de alguns governos tradicionalmente comprometidos com a subversão contra Cuba, desataram uma nova campanha de acusações, aproveitando inescrupulosamente um fato lamentável: o falecimento de um preso comum que, talvez, só no caso de Cuba, se converte em notícia de repercussão internacional.

O método empregado é o mesmo de sempre, que pretende impor-se infrutiferamente, mediante a repetição, com o objetivo de satanizar Cuba, neste caso, a partir da manipulação deliberada de um acontecimento totalmente inusual em nosso país, diferentemente de outros.

O denominado "preso político" cumpria uma sanção de quatro anos de prisão, após um processo justo, durante o qual esteve em liberdade e de um julgamento conforme ao direito, por ter golpeado de forma brutal e publicamente sua esposa, agredir os policiais e resistir violentamente a detenção.

Esta pessoa morreu em decorrência de uma falha múltipla dos órgãos, associada a um processo respiratório séptico severo, apesar de haver recebido todo o atendimento médico necessário, incluídos os medicamentos e o tratamento especializado, na sala de cuidados intensivos do principal hospital de Santiago de Cuba.

Por que algumas autoridades espanholas e da União Europeia se apressaram a condenar Cuba, sem tentarem, sequer, obter informação acerca do tema? Por que sempre e com antecedência, lançam mão da mentira, quando se trata de Cuba? Por que, além de mentirem, censuram a verdade? Por que à voz e à verdade de Cuba se nega, sem nenhum dissimulo, o mais mínimo espaço na mídia internacional?

Age-se com grande cinismo e dupla moral. Que qualificativo eles dariam à brutalidade policial, vista recentemente na Espanha e na maior parte da "culta e civilizada Europa", contra o movimento dos "indignados"?

Quem se preocupou pela dramática situação de amontoamento nos cárceres espanhóis, que albergam uma população penal imigrante muito alta, que ultrapassa 35% do total de réus no país, segundo o último relatório disponível do sindicato das prisões ACAIP, com data de 3 de abril de 2010? Quem se preocupou por investigar o falecimento, em julho de 2011, no centro penitenciário de Teruel, em Espanha, de Tohuami Hamdaoui, um preso comum de origem marroquina, que morreu após uma greve de fome voluntária que durou vários meses? Quem explicou que o detento tinha declarado sua inocência?

Por acaso perdeu a memória e a noção da realidade o porta-voz chileno que nos calunia, quando afirma que o defunto era um dissidente político que se manteve 50 dias em greve de fome? Ele deve conservar lembranças de seus dias de líder estudantil, vinculado aos militares golpistas de Pinochet, que massacraram o povo e estenderam os desaparecimentos e a tortura a todo o Cone Sul, mediante o "Plano Condor", mas não se conhece nenhuma declaração dele acerca da brutal repressão contra os estudantes que se manifestam pacificamente em defesa do direito humano ao ensino universal e gratuito. Será que ele faz parte dos que quiseram rebatizar, nos livros escolares, a ditadura como regime militar? Ele terá dito alguma coisa acerca da repressiva e arbitrária Lei Antiterrorista, aplicada aos mapuches em greve de fome?

Não podia faltar nesta campanha o governo dos Estados Unidos, principal instigador de qualquer esforço cujo objetivo seja desacreditar Cuba, com o único propósito de justificar sua política de hostilidade, subversão e bloqueio econômico, político e midiático contra o povo cubano.

Impressiona a hipocrisia dos porta-vozes dos Estados Unidos, país que detém um péssimo recorde em matéria de direitos humanos, tanto dentro de seu território como no mundo. O Conselho dos Direitos Humanos das Nações Unidas reconheceu que nesse país ocorrem, diariamente, graves violações dos direitos da mulher, tráfico de pessoas, discriminação racial e contra minorias étnicas, condições desumanas nas prisões, desamparo dos detentos, um padrão racial diferenciado e frequentes erros judiciais na imposição da pena de morte, a execução de menores e enfermos mentais, os abusos do sistema de detenção migratório, as mortes na militarizada fronteira sul, os atos atrozes contra a dignidade humana e o assassinato de vítimas inocentes da população civil, por parte de efetivos do exército estadunidense no Iraque, Afeganistão, Paquistão e outros países, e as detenções arbitrárias e torturas perpetuadas no ilegal centro de detenção da base naval de Guantánamo que usurpa nosso território.

Mal se conhece no mundo que, em novembro de 2011, nos Estados Unidos, três pessoas morreram em meio de uma greve de fome em massa de prisioneiros na Califórnia. Segundo os depoimentos dos presos das celas contíguas, os guardas não lhes ofereceram nenhum atendimento e, inclusive, de forma deliberada, fizeram ouvidos moucos de seus brados de auxílio, na contramão de sua prática abusiva de submeter os grevistas a alimentação forçada.

Semanas antes, havia sido executado o afro-americano Troy Davis, apesar da copiosa evidência que demonstrava o erro judicial, sem que a Casa Branca nem o Departamento de Estado nada fizessem.

Nos Estados Unidos, 90 prisioneiros já foram executados desde janeiro de 2010 até a atualidade, enquanto mais 3.222 réus esperam a execução no corredor da morte. Seu governo, aliás, reprime assiduamente e com brutalidade aqueles que se atrevem a denunciar a injustiça do sistema.

Este novo ataque contra nosso país tem uma franca intenção política, que nada tem a ver com uma legítima preocupação pela vida das cubanas e cubanos. Fustiga-se com a cumplicidade de empórios financeiro-midiáticos, como o grupo Prisa e o que administra a CNN em espanhol, com o melhor estilo da máfia de Miami. Acusa-se de maneira irracional o governo de Cuba, que é culpado, sem sequer ter investigado, de forma mínima, a realidade dos fatos. Condena-se primeiro e julga-se, por acaso, depois.

Neste caso, é evidente que nem as autoridades, que se referiram com imediatez e torpeza a este fato, nem o aparelho a serviço da agressão midiática contra Cuba, se deram ao trabalho de confirmarem a informação. Pouco importa a verdade se o que se pretende é fabricar artificialmente e vender uma imagem falsa de supostas violações flagrantes e sistemáticas das liberdades em Cuba, que um dia qualquer justifique uma intervenção, com o objetivo de "proteger cubanos civis indefesos".

Torna-se evidente a intenção de impor uma matriz de opinião diabólica, encaminhada a mostrar uma deterioração sensível da situação dos direitos humanos em Cuba, construir uma suposta "oposição vitimizada que morre nos cárceres" onde, inclusive, lhe é negado o direito aos serviços de saúde.

O mundo todo conhece a vocação humanista de nossos médicos e pessoal da saúde, que no escatima esforços nem os escassos recursos com que conta o país — em boa medida devido ao criminoso bloqueio que sofre nosso povo há mais de 50 anos — para salvar vidas e melhorar o estado de saúde de seu povo e de muitos outros, em todos os recantos da Terra.

Cuba conta com o respeito e a admiração dos povos e de muitos governos que reconhecem sua obra social na Ilha e no mundo.

Os fatos falam mais do que as palavras. As campanhas anticubanas não farão fraquejar a Revolução cubana e seu povo, que continuará aperfeiçoando seu socialismo.

A verdade de Cuba é a do país onde o ser humano é o mais valioso: uma esperança de vida ao nascer de 77,9 anos, em média; uma cobertura de saúde gratuita para todo seu povo; um índice de mortalidade infantil de 4,9 em cada mil nascidos vivos, estatística que supera os padrões norte-americanos e é a mais baixa no continente, levemente inferior à do Canadá; toda a população alfabetizada e com pleno acesso a todos os níveis do ensino, de maneira gratuita; 96% de participação nas eleições gerais de 2008, um processo democrático de discussão das Diretrizes econômicas e sociais, prévio ao 6º Congresso do Partido.

A verdade de Cuba é a do país que levou suas universidades e escolas aos centros penitenciários, nos quais os réus foram oportuna e imparcialmente julgados, recebem salário igual por seu trabalho e dispõem de elevados níveis de atendimento médico, sem distinção de raça, sexo, credo nem origem social.

Mais uma vez, ficará demonstrado que a mentira, apesar de ser muitas vezes repetida, não necessariamente se converte em verdade, porque "um princípio justo, do fundo de uma gruta, pode mais do que um exército".

A GENIALIDADE DE HUGO CHAVEZ

O presidente Chávez apresentou ao Parlamento da Venezuela seu informe sobre a atividade realizada em 2011 e o programa a executar no ano atual. Depois de cumprir rigorosamente as formalidades que essa importante atividade demanda, falou na Assembleia às autoridades oficiais do Estado, aos parlamentares de todos os partidos e aos simpatizantes e adversários que o país reúne em seu ato mais solene.



O líder bolivariano foi amável e respeitoso com todos os presentes, como é habitual nele. Se alguém lhe solicitava o uso da palavra para algum esclarecimento, ele concedia de imediato essa possibilidade. Quando uma parlamentar, que o havia saudado amavelmente, assim como outros adversários, pediu para falar, interrompeu seu informe e lhe cedeu a palavra, em um gesto de grande estatura política. Chamou minha atenção a dureza extrema com que o presidente foi increpado com frases que puseram à prova seu cavalheirismo e sangue frio. Aquilo constituía uma inquestionável ofensa, embora não fosse a intenção da parlamentar.

Só ele foi capaz de responder com serenidade ao insultuoso qualificativo de "ladrão" que ela utilizou para julgar a conduta do presidente pelas leis e medidas adotadas.

Depois de verificar sobre o termo exato empregado, respondeu à solicitação individual de um debate com uma frase elegante e tranquila "Águia não caça moscas", e sem acrescentar uma palavra, prosseguiu serenamente sua exposição.

Foi uma prova insuperável de mente ágil e autocontrole. Outra mulher, de inquestionável estirpe humilde, com emotivas e profundas palavras expressou o assombro pelo que tinha visto e arrancou o aplauso da imensa maioria ali presente, que pelo estampido dos mesmos, parecia proceder de todos os amigos e muitos dos adversários do presidente.

Chávez investiu mais de nove horas em seu discurso de prestação de contas, sem que diminuísse o interesse suscitado por suas palavras e, talvez, devido ao incidente, foi escutado por incalculável número de pessoas. Para mim, que muitas vezes abordei árduos problemas em extensos discursos, fazendo sempre o máximo esforço para que as ideias que desejava transmitir fossem compreendidas, não consigo explicar como aquele soldado de modesta origem foi capaz de manter com sua mente ágil e seu inigualável talento tal torrente oratória, sem perder sua voz nem diminuir sua força.

A política para mim é o combate amplo e resoluto das ideias. A publicidade é tarefa dos publicitários, que talvez conheçam as técnicas para fazer com que os ouvintes, espectadores e leitores façam o que se lhes diz. Se tal ciência, arte ou como lhe chamem, fosse empregada para o bem dos seres humanos, mereceriam algum respeito; o mesmo que merecem os que ensinam às pessoas o hábito de pensar.

No cenário da Venezuela se trava hoje um grande combate. Os inimigos internos e externos da revolução preferem o caos, como afirma Chávez, ao avesso do desenvolvimento justo, ordenado e pacífico do país. Acostumado a analisar os fatos ocorridos durante mais de meio século, e de observar cada vez com maiores elementos de juízo a aleatória história de nosso tempo e o comportamento humano, aprende-se quase a prever o desenvolvimento futuro dos acontecimentos.

Promover uma revolução profunda não era tarefa fácil na Venezuela, um país de gloriosa história, mas imensamente rico em recursos de vital necessidade para as potências imperialistas que traçaram e ainda traçam pautas no mundo.

Líderes políticos ao estilo de Rômulo Betancourt e Carlos Andrés Pérez careciam de qualidades pessoais mínimas para realizar essa tarefa. O primeiro era, ademais, excessivamente vaidoso e hipócrita. Teve oportunidades de sobra para conhecer a realidade venezuelana. Em sua juventude tinha sido membro do Bureau Político do Partido Comunista da Costa Rica. Conhecia muito bem a história da América Latina e o papel do imperialismo, os índices de pobreza e o saque desapiedado dos recursos naturais do continente. Não podia ignorar que em um país imensamente rico como a Venezuela, a maioria do povo vivia em extrema pobreza. Existem filmes nos arquivos que constituem provas irrefutáveis daquelas realidades.

Como tantas vezes Chávez explicou, a Venezuela durante mais de meio século, foi o maior exportador de petróleo no mundo; navios de guerra europeus e ianques em princípios do século 20 intervieram para apoiar um governo ilegal e tirânico, que entregou o país aos monopólios estrangeiros. É bem sabido que incalculáveis fundos saíram para engrossar o patrimônio dos monopólios e da própria oligarquia venezuelana.

A mim me basta recordar que quando visitei a Venezuela, pela primeira vez, depois do triunfo da Revolução, para agradecer sua simpatia e apoio a nossa luta, o petróleo valia apenas dois dólares o barril.

Quando viajei depois para assistir à posse de Chávez, no dia que jurou sobre a "moribunda Constituição" que Calderas apoiava, o petróleo valia 7 dólares o barril, apesar dos 40 anos transcorridos desde a primeira visita e quase 30 desde que o "benemérito" Richard Nixon tinha declarado que o câmbio metálico do dólar deixava de existir e os Estados Unidos começaram a comprar o mundo com papéis. Durante um século, a nação foi fornecedora de combustível barato à economia do império e exportadora líquida de capital aos países desenvolvidos e ricos.

Por que essas repugnantes realidades predominaram durante mais de um século?
Os oficiais das Forças Armadas da América Latina tinham suas escolas privilegiadas nos Estados Unidos, onde os campeões olímpicos das democracias os educavam em cursos especiais destinados a preservar a ordem imperialista e burguesa. Os golpes de Estado seriam bem-vindos sempre que fossem destinados a "defender as democracias", preservar e garantir tão repugnante ordem, em aliança com as oligarquias; se os eleitores sabiam ou não ler e escrever, se tinham ou não casas, emprego, serviços médicos e educação, isso não tinha importância, sempre que o sagrado direito à propriedade fosse defendido. Chávez explica essas realidades magistralmente. Ninguém sabe como ele o que ocorria em nossos países.

O que era ainda pior, o caráter sofisticado das armas, a complexidade na exploração e o uso do armamento moderno que requer anos de aprendizagem, e a formação de especialistas altamente qualificados, o preço quase inacessível das mesmas para as economias débeis do continente, criavam um mecanismo superior de subordinação e dependência. O governo dos Estados Unidos, através de mecanismos que nem sequer consultam os governos, traça pautas e determina políticas para os militares. As técnicas mais sofisticadas de torturas eram transmitidas aos chamados corpos de segurança para interrogar os que se revoltavam contra o imundo e repugnante sistema de fome e exploração.

Apesar disso, não poucos oficiais honestos, enfastiados por tantas sem-vergonhices, tentaram valentemente erradicar aquela embaraçosa traição à história de nossas lutas pela independência.

Na Argentina, Juan Domingo Peron, oficial do Exército, foi capaz de desenhar uma política independente e de raiz operária em seu país. Um sangrento golpe militar o derrubou, o expulsou de seu país, manteve-o exilado de 1955 até 1973. Anos mais tarde, sob a égide dos ianques, assaltaram de novo o poder, assassinaram, torturaram e fizeram desaparecer dezenas de milhares de argentinos, não foram sequer capazes de defender o país na guerra colonial contra a Argentina que a Inglaterra levou a cabo, com o apoio cúmplice dos Estados Unidos e do esbirro Augusto Pinochet, com seu grupo de oficiais fascistas formados na Escola das Américas.

Na República Dominicana, o coronel Francisco Caamaño Deñó; no Peru, o general Velazco Alvarado; no Panamá, o general Omar Torrijos; e em outros países capitães e oficiais que sacrificaram suas vidas anonimamente, foram as antíteses das condutas traidoras personificadas em Somoza, Trujillo, Stroessner e nas sanguinárias tiranias do Uruguai, El Salvador e outros países da América Central e do Sul. Os militares revolucionários não expressavam pontos de vista teoricamente elaborados em detalhes, e ninguém tinha direito de exigir isto deles, porque não eram acadêmicos educados na política, mas homens com sentido da honra que amavam seu país.


Contudo, é necessário ver até onde são capazes de chegar pelos caminhos da revolução homens de tendência honesta, que repudiam a injustiça e o crime.

A Venezuela constitui um brilhante exemplo do papel teórico e prático que os militares revolucionários podem desempenhar na luta pela independência de nossos povos, como já tinham feito há dois séculos sob a genial direção de Simón Bolívar.

Chávez, um militar venezuelano de origem humilde, irrompe na vida política da Venezuela, inspirado nas ideias do libertador da América. Sobre Bolívar, fonte inesgotável de inspiração, José Martí escreveu:

"ganhou batalhas sublimes com soldados descalços e seminus [...] jamais se lutou tanto, nem se lutou melhor no mundo pela liberdade…"

"… de Bolívar – disse – se pode falar com uma montanha como tribuna [...] ou com um monte de povos livres no punho…"

"… o que ele não deixou feito, sem fazer está até hoje; porque Bolívar ainda tem o que fazer na América."

Mais de meio século depois, o insigne e laureado poeta Pablo Neruda escreveu sobre Bolívar um poema que Chávez repete com frequência. Em sua estrofe final expressa:

"Eu conheci Bolívar em uma longa manhã,
em Madri, na boca do Quinto Regimento,

Pai, lhe disse, és ou não és ou quem és?

E olhando o quartel da Montanha, disse:

‘Desperto cada cem anos quando o povo desperta ’."
Mas o líder bolivariano não se limita à elaboração teórica. Suas medidas concretas não se fazem esperar. Os países caribenhos de língua inglesa, aos quais modernos e luxuosos navios cruzeiros ianques disputavam o direito de receber turistas em seus hotéis, restaurantes e centros de recreação, não poucas vezes de propriedade estrangeira mas que ao menos geravam emprego, agradecerão sempre à Venezuela o combustível fornecido por esse país, com facilidades especiais de pagamento, quando o barril atingiu preços que às vezes ultrapassavam os 100 dólares.

O pequeno Estado da Nicarágua, pátria de Sandino, "General de Homens Livres", onde a Agência Central de Inteligência através de Luis Posada Carriles, depois de ser resgatado de uma prisão venezuelana, organizou o intercâmbio de armas por drogas que custou milhares de vidas e mutilados a esse heróico povo, também recebeu o apoio solidário da Venezuela. São exemplos sem precedentes na história deste hemisfério.

O ruinoso Acordo de Livre Comércio que os ianques pretendem impor à América Latina, como fez com o México, transformaria os países latino-americanos e caribenhos não só na região do mundo onde é pior distribuída a riqueza, pois já é, mas também em um gigantesco mercado onde até o milho e outros alimentos que são fontes históricas de proteína vegetal e animal, seriam substituídos pelas culturas subsidiadas dos Estados Unidos, como já está ocorrendo no território mexicano.

Os automóveis de uso e outros bens substituem os da indústria mexicana; tanto as cidades como os campos perdem sua capacidade de emprego, o comércio de drogas e armas cresce, jovens quase adolescentes, com apenas 14 ou 15 anos, em número crescente, são transformados em temíveis delinquentes. Jamais se viu que ônibus ou outros veículos repletos de pessoas, que inclusive pagaram para ser transportados ao outro lado da fronteira em busca de emprego, fossem sequestrados e eliminados massivamente. Os dados conhecidos crescem ano a ano. Mais de 10 mil pessoas estão perdendo a vida a cada ano.

Não é possível analisar a Revolução Bolivariana sem ter em conta estas realidades.

As Forças Armadas, em tais circunstâncias sociais, se veem forçadas a intermináveis e desgastantes guerras.

Honduras não é um país industrializado, financeiro ou comercial, nem sequer grande produtor de drogas, contudo algumas de suas cidades batem o recorde de mortos por violência por causa das drogas. Ali se ergue, ao invés, o estandarte de uma importante base das forças estratégicas do Comando Sul dos Estados Unidos. O que ocorre ali e já está ocorrendo em mais de um país latino-americano é o dantesco quadro assinalado, dos quais alguns países começaram a sair. Entre eles, e em primeiro lugar a Venezuela, mas não só porque possui grandes quantidades de recursos naturais, mas porque os resgatou da avareza insaciável das transnacionais estrangeiras e já desatou consideráveis forças políticas e sociais capazes de alcançar grandes conquistas. A Venezuela de hoje é outra muito distinta da que conheci há apenas 12 anos, e já então me impressionou profundamente, ao ver que, como a ave Fênix, ressurgia de suas históricas cinzas.

Aludindo ao misterioso computador de Raúl Reyes, em mãos dos Estados Unidos e da CIA, a partir do ataque organizado e abastecido por eles em pleno território equatoriano, que assassinou o substituto de Marulanda e vários jovens latino-americanos desarmados, lançaram a versão de que Chávez apoiava a "organização narcoterrorista das FARC".

Os verdadeiros terroristas e narcotraficantes na Colômbia têm sido os paramilitares que forneciam aos traficantes norte-americanos as drogas, que são vendidas no maior mercado de entorpecentes do mundo: os Estados Unidos.

Nunca falei com Marulanda, mas sim com escritores e intelectuais honrados que chegaram a conhecê-lo bem. Analisei seus pensamentos e história. Era, sem dúvida, um homem valente e revolucionário, o que afirmo sem vacilar. Expliquei que não coincidia com ele em sua concepção tática. A meu juízo, dois ou três mil homens teriam sido mais do que suficientes para derrotar, no território da Colômbia, um exército regular convencional. Seu erro foi conceber um exército revolucionário armado com quase tantos soldados como o adversário. Isso era sumamente custoso e virtualmente impossível de dirigir; torna-se algo impossível.

Hoje a tecnologia mudou muitos aspectos da guerra; as formas de luta também mudam. De fato, o enfrentamento das forças convencionais, entre potências que possuem a arma nuclear, se tornou impossível. Não é preciso ter os conhecimentos de Albert Einstein, Stephen Hawking e milhares de outros cientistas para compreender isso. É um perigo latente e o resultado se conhece ou se deveria conhecer. Os seres pensantes poderiam tardar milhões de anos a voltar a povoar o planeta.

Apesar de tudo, defendo o dever de lutar, que é algo de per si inato no homem, buscar soluções que lhe permitam uma existência mais razoável e digna.
Desde que conheci Chávez, já na presidência da Venezuela, desde a etapa final do governo de Pastrana, sempre o vi interessado pela paz na Colômbia, e facilitou as reuniões entre o governo e os revolucionários colombianos que tiveram como sede Cuba, entenda-se bem, para um verdadeiro acordo de paz e não uma rendição.

Não me recordo de ter escutado Chávez promover na Colômbia outra coisa que não fosse a paz, nem tampouco mencionar Raúl Reyes. Sempre abordávamos outros temas. Ele aprecia particularmente os colombianos; milhões deles vivem na Venezuela e todos se beneficiam das medidas sociais adotadas pela Revolução e o povo da Colômbia o aprecia quase tanto como o da Venezuela.

Desejo expressar minha solidariedade e estima ao general Henry Rangel Silva, chefe do Comando Estratégico Operacional das Forças Armadas, e recém designado ministro para a Defesa da República Bolivariana. Tive a honra de conhecê-lo quando em meses já distantes visitou Chávez em Cuba. Pude apreciar nele um homem inteligente e são, capaz e ao mesmo tempo modesto. Escutei seu discurso sereno, valente e claro, que inspirava confiança.

Dirigiu a organização do desfile militar mais perfeito que já vi de uma força militar latino-americana, que esperamos sirva de alento e exemplo a outros exércitos irmãos.

Os ianques nada têm a ver com esse desfile e não seriam capazes de fazê-lo melhor.

É sumamente injusto criticar Chávez pelos recursos investidos nas excelentes armas que ali foram exibidas. Estou seguro de que jamais serão utilizadas para agredir um país irmão. As armas, os recursos e os conhecimentos deverão marchar pelos caminhos da unidade para formar na América, como sonhou O Libertador, "…a maior nação do mundo, menos por sua extensão e riqueza do que por sua liberdade e glória".

Tudo nos une mais que à Europa ou aos próprios Estados Unidos, exceto a falta de independência que nos impuseram durante 200 anos.
Fidel Castro Ruz
25 de janeiro de 2012
20h32

A FRUTA QUE NÃO CAIU


CUBA se viu forçada a lutar por sua existência frente a uma potência expansionista, situada a poucas milhas de suas costas, que proclamava a anexação de nossa ilha, cujo único destino era cair em seu seio como fruta madura. Estávamos condenados a não existir como nação.


Na gloriosa legião de patriotas que durante a segunda metade do século 19 lutou contra o repugnante colonialismo imposto pela Espanha ao longo de 300 anos, José Martí foi quem com mais clareza percebeu tão dramático destino. Assim fez constar nas últimas linhas que escreveu quando, às vésperas do duro combate previsto contra uma aguerrida e bem apetrechada coluna espanhola, declarou que o objetivo fundamental de suas lutas era: "… impedir a tempo, com a independência de Cuba, que os Estados Unidos se estendam pelas Antilhas e caiam, com mais essa força, sobre nossas terras da América. Tudo quanto fiz até hoje, e farei, é para isso."

Sem compreender esta profunda verdade, hoje não se poderia ser nem patriota, nem revolucionário.
Os meios de informação massiva, o monopólio de muitos recursos técnicos, e os enormes fundos destinados a enganar e embrutecer as massas, constituem, sem dúvida, obstáculos consideráveis, mas não invencíveis.

Cuba demonstrou que — a partir de sua condição de fábrica colonial ianque, unida ao analfabetismo e à pobreza generalizada de seu povo — era possível enfrentar o país que ameaçava com a absorção definitiva da nação cubana. Ninguém pode sequer afirmar que existia uma burguesia nacional oposta ao império, tão próxima a ele se desenvolveu que inclusive pouco depois do triunfo enviou 14 mil crianças sem proteção alguma aos Estados Unidos, embora tal ação estivesse associada à pérfida mentira de que seria suprimido o pátrio poder, que a história registrou como operação Peter Pan e foi qualificada como a maior manobra de manipulação de crianças com fins políticos de que se tem notícia
no hemisfério ocidental.

O território nacional foi invadido, apenas dois anos depois do triunfo revolucionário, por forças mercenárias — integradas por antigos soldados batistianos e filhos de latifundiários e burgueses — armadas e escoltadas pelos Estados Unidos com barcos de sua frota naval, incluídos porta-aviões com tripulações prontas para entrar em ação, que acompanharam os invasores até nossa ilha. A derrota e a captura da quase totalidade dos mercenários, em menos de 72 horas, e a destruição de seus aviões que operavam a partir de bases na Nicarágua e seus meios de transporte naval, constituiu uma derrota humilhante para o império e seus aliados latino-americanos que subestimaram a capacidade de luta do povo cubano.

A URSS frente à interrupção do fornecimento de petróleo por parte dos Estados Unidos, a ulterior suspensão total da cota histórica de açúcar no mercado desse país, e a proibição do comércio criado ao longo de mais de cem anos, respondeu a cada uma dessas medidas fornecendo combustível, adquirindo nosso açúcar, comerciando com nosso país e, finalmente, fornecendo as armas que Cuba não podia adquirir em outros mercados.

A ideia de uma campanha sistemática de ataques piratas organizados pela CIA, as sabotagens e as ações militares de bandos criados e armados por ele, antes e depois do ataque mercenário, que culminariam em uma invasão militar dos Estados Unidos em Cuba, deram origem aos acontecimentos que levaram o mundo à beira de uma guerra nuclear total, da qual nenhuma de suas partes e nem a própria humanidade teria podido sobreviver.

Aqueles acontecimentos, sem dúvida, custaram o cargo a Nikita Kruchov, que subestimou o adversário, desconsiderou critérios que lhe foram informados e não nos consultou para sua decisão final, a nós que estávamos na primeira linha. O que podia ser uma importante vitória moral se converteu assim em um custoso revés político para a URSS.

Durante muitos anos, as piores malfeitorias continuaram sendo realizadas contra Cuba e não poucas, como o criminoso bloqueio, são cometidas ainda.

Kruchov teve gestos extraordinários com nosso país. Naquela ocasião, critiquei sem vacilação o acordo inconsulto com os Estados Unidos, mas seria ingrato e injusto deixar de reconhecer sua extraordinária solidariedade em momentos difíceis e decisivos para nosso povo em sua histórica batalha pela independência e a revolução frente ao poderoso império dos Estados Unidos. Compreendo que a situação era sumamente tensa e ele não desejava perder um minuto, quando tomou a decisão de retirar os projéteis e os ianques se comprometeram, muito secretamente, a renunciar à invasão.

Apesar das décadas transcorridas que já somam meio século, a fruta cubana não caiu em mãos ianques.

As notícias que na atualidade chegam da Espanha, França, Iraque, Afeganistão, Paquistão, Irã, Síria, Inglaterra, as Malvinas e outros numerosos pontos do planeta, são sérias, e todas auguram um desastre político e econômico pela insensatez dos Estados Unidos e seus aliados.

Limitar-me-ei a uns poucos temas. Devo assinalar segundo todos contam, que a escolha de um candidato republicano para aspirar à presidência desse globalizado e abrangente império, é por sua vez, — digo isso seriamente — a maior competição de idiotices e ignorância que jamais se escutou. Como tenho coisas a fazer, não posso dedicar tempo a esse assunto. De resto, sabia que seria assim.

São mais ilustrativas algumas informações que desejo analisar, porque mostram o incrível cinismo que a decadência do Ocidente gera. Uma delas, com pasmosa tranquilidade, fala de um preso político cubano que, segundo se afirma, morreu depois de greve de fome que durou 50 dias. Um jornalista do Granma, Juventud Rebelde, noticiário radiofônico ou qualquer outro órgão revolucionário, pode equivocar-se em qualquer apreciação sobre qualquer tema, mas jamais fabrica uma notícia ou inventa uma mentira.

Na nota do Granma se afirma que não houve tal greve de fome; era um recluso por delito comum, condenado a quatro anos por agressão, que provocou lesões no rosto de sua esposa; que a própria sogra solicitou a intervenção das autoridades; os familiares mais ligados estiveram a par de todos os procedimentos que foram empregados em seu atendimento médico e estavam agradecidos pelo esforço dos especialistas médicos que o atenderam. Foi assistido, afirma a nota, no melhor hospital da região oriental, como se faz com todos os cidadãos. Morreu por causa de falência múltipla de órgãos secundária, associada a um processo respiratório séptico severo.

O paciente tinha recebido todas as atenções que se aplicam em um país que possui um dos melhores serviços médicos do mundo, os quais são oferecidos gratuitamente, apesar do bloqueio imposto pelo imperialismo a nossa Pátria. É simplesmente um dever que se cumpre em um país onde a Revolução tem o orgulho de ter respeitado sempre, durante mais de 50 anos, os princípios que lhe deram sua invencível força.

Mas seria realmente bom que o governo espanhol, dadas as suas excelentes relações com Washington, viaje aos Estados Unidos e se informe do que ocorre nas prisões ianques, a conduta desapiedada que aplica aos milhões de presos, a política que se pratica com a cadeira elétrica e os horrores que se cometem com os detentos nas prisões e com os que protestam nas ruas.


Segunda-feira, 23 de janeiro, um duro editorial do Granma intitulado "As verdades de Cuba" em uma página inteira desse órgão, explicou detalhadamente a insólita falta de vergonha da campanha mentirosa desencadeada contra nossa Revolução por alguns governos "tradicionalmente comprometidos com a subversão contra Cuba".

Nosso povo conhece bem as normas que têm regido a conduta impecável de nossa Revolução, desde o primeiro combate, e jamais manchada ao longo de mais de meio século. Sabe também que não poderá ser jamais pressionada nem chantageada pelos inimigos. Nossas leis e normas serão cumpridas indefectivelmente.

É bom dizer com toda a clareza e franqueza. O governo espanhol e a União Europeia em ruínas, mergulhada em uma profunda crise econômica, devem saber a que se ater. Produz lástima ler em agências de notícias as declarações de ambas quando utilizam suas descaradas mentiras para atacar Cuba.

Ocupem-se primeiro de salvar o euro se puderem, resolvam o desemprego crônico de que em número crescente padecem os jovens, e respondam aos indignados sobre os quais a polícia arremete e golpeia constantemente.

Não ignoramos que agora na Espanha governam os admiradores de Franco, que enviou membros da Divisão Azul junto às SS e as SA nazistas para matar soviéticos. Quase 50 mil deles participaram da cruenta agressão. Na operação mais cruel e dolorosa daquela guerra: o cerco de Leningrado, onde morreram um milhão de cidadãos russos, a Divisão Azul fazia parte das forças que trataram de estrangular a heróica cidade. O povo russo não perdoará nunca aquele horrendo crime.

A direita fascista de Aznar, Rajoy e outros servidores do império deve conhecer algo das 16 mil baixas que tiveram seus antecessores da Divisão Azul e as Cruzes de Ferro com as quais Hitler premiou os oficiais e soldados dessa divisão. Nada há de estranho no que faz hoje a polícia gestapo com os homens e mulheres que demandam direito ao trabalho e ao pão, no país com mais desemprego da Europa.

Por que mentem tão descaradamente os meios de informação de massa do império?

Os que manejam esses meios se empenham em enganar e embrutecer o mundo com suas grosseiras mentiras, pensando talvez que constitui o recurso principal para manter o sistema global de dominação e saque imposto e de modo particular as vítimas próximas à sede da metrópole, os quase seiscentos milhões de latino-americanos e caribenhos que vivem neste hemisfério.

A república irmã da Venezuela se converteu no objetivo fundamental dessa política. A razão é óbvia. Sem a Venezuela, o império teria imposto o Acordo de Livre Comércio a todos os povos do continente que nele habitam desde o sul dos Estados Unidos, onde se encontram as maiores reservas de terra, água doce e minérios do planeta, assim como grandes recursos energéticos que, administrados com espírito solidário para os demais povos do mundo, constituem recursos que não podem nem devem cair nas mãos das transnacionais que impõem um sistema suicida e infame.

Basta, por exemplo, olhar o mapa para compreender o criminoso despojo que significou para a Argentina arrebatar-lhe um pedaço de seu território no extremo sul do continente. Ali os britânicos empregaram seu decadente aparato militar para assassinar bisonhos recrutas argentinos, vestidos com roupas de verão quando já estavam em pleno inverno. Os Estados Unidos e seu aliado Augusto Pinochet deram à Inglaterra um desavergonhado apoio. Agora, na véspera das Olimpíadas de Londres, seu primeiro-ministro David Cameron também proclama, como fez Margaret Thatcher, seu direito a usar os submarinos nucleares para matar argentinos. O governo desse país desconhece que o mundo está mudando, e o desprezo de nosso hemisfério e da maioria dos povos aos opressores aumenta a cada dia.

O caso das Malvinas não é único. Alguém por acaso sabe como terminará o conflito no Afeganistão? Há poucos dias soldados norte-americanos ultrajavam os cadáveres de combatentes afegãos, assassinados pelos bombardeiros sem pilotos da Otan.

Há três dias, uma agência europeia publicou que "o presidente afegão Hamid Karzai, deu seu aval a uma negociação de paz com os talibãs, sublinhando que esta questão deve ser resolvida pelos cidadãos de seu país", logo acrescentando: "…o processo de paz e reconciliação pertence à nação afegã e nenhum país ou organização estrangeira pode tirar esse direito dos afegãos."

Por sua parte, uma informação publicada por nossa imprensa comunicava de Paris que "a França suspendeu hoje todas as suas operações de formação e ajuda ao combate no Afeganistão e ameaçou antecipar a retirada de suas tropas, logo que um soldado afegão matou quatro militares franceses no vale Taghab, na província de Kapisa [...] Sarkozy deu instruções ao ministro da Defesa, Gérard Longuet, para transladar-se imediatamente a Cabul, e vislumbrou a possibilidade de uma retirada antecipada do contingente."

Desaparecida a URSS e o bloco socialista, o governo dos Estados Unidos concebia que Cuba não podia sustentar-se. George W. Bush já tinha preparado um governo contrarrevolucionário para presidir nosso país. No mesmo ano em que Bush iniciou sua guerra criminosa contra o Iraque, solicitei às autoridades de nosso país o fim da tolerância que se aplicava aos chefetes contrarrevolucionários que naqueles dias demandavam histericamente a invasão de Cuba. Na realidade, sua atitude constituía um ato de traição à Pátria.

Bush e suas atitudes estúpidas imperaram durante oito anos e a Revolução Cubana perdurou já mais de meio século. A fruta madura não caiu no seio do império. Cuba não será uma força a mais com a qual o império se estenda sobre os povos da América. O sangue de José Martí não terá sido derramado em vão.

Amanhã publicarei outra Reflexão que complementa esta.
Fidel Castro Ruz
24 de janeiro de 2012
19h12.

ILUSÕES & PANTOMINAS: E ASSIM SE CRIOU UMA " NOVA CLASSE MÉDIA"...

Este é um país de pobres, que precisa mudar, e mudará, mas, para isso, é necessário que a luta dos trabalhadores e do povo brasileiro enfrente os problemas reais, por mais difíceis que eles sejam. Abafar essa luta, promovendo, no papel – e na mídia – os pobres a outra coisa diferente do que eles são, é tudo de que não precisamos. Pode ser que cultive, por algum tempo, o sossego de alguns. Mas a fuga para as ilusões sempre cobra um preço muito alto – e doloroso

CARLOS LOPES

Logo no segundo dia deste ano, o economista Marcio Pochmann, presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), publicou um artigo absolutamente pertinente. Seu tema é a tão incensada "nova classe média", expressão que, no contexto usado nos últimos tempos, pode pertencer ao marketing, mas não à economia, ou, seriamente, a qualquer área do conhecimento.
Escreveu Pochmann:

"O adicional de ocupados na base da pirâmide social reforçou o contingente da classe trabalhadora, equivocadamente identificada como uma nova classe média. Talvez não seja bem um mero equívoco conceitual, mas expressão da disputa que se instala em torno da concepção e condução das políticas públicas atuais. A interpretação de classe média (nova) resulta, em consequência, no apelo à reorientação das políticas públicas para a perspectiva fundamentalmente mercantil. Ou seja, o fortalecimento dos planos privados de saúde, educação, assistência e previdência, entre outros. (…) Isso torna a agenda das políticas públicas assentadas na centralidade do trabalho desafiada, posto que a força difusora de um conceito equivocado sobre alterações na estratificação social pode levar à dispersão e fragmentação da atuação do Estado" (cf. Marcio Pochmann, "Novos personagens?", FSP, 02/01/2012, grifo nosso).

Marcio é um homem e um profissional honesto. Além disso, entre as suas qualidades, existe outra, inestimável em nossa época: ele pensa e gosta de pensar. Por isso, não tem problemas em reformular suas ideias, desde que seu compromisso é com a verdade. Não deixa de ser um grande feito do governo Dilma tê-lo mantido à frente do Ipea.

Mas, voltemos à suposta "nova classe média".

Realmente, depois que "The Economist" endossou essa inefável neo-classe no Brasil – e apresentando como exemplo o bairro popular paulistano de Paraisópolis, que em outros tempos seria chamado, sem intenção pejorativa, de "favela" - há de se perguntar a que interesses atende esse novo "conceito". Chamar algo pelo que ele não é, seja lá o que for, em geral, somente é uma iniciativa desinteressada quando quem o chama tem a cabeça girando em torno da Lua. Aliás, pensando bem, nem mesmo nesse caso.

O fato é que a expressão "nova classe média" tem sido, mais do que usada, abusada. Em alguns casos, é impossível evitar um travo de repugnância, diante do que é, cada vez mais claramente, expressão daqueles preconceitos particularmente odiosos – os que atingem os menos favorecidos socialmente, em resumo, os pobres, o povo.

Há poucos dias, por exemplo, o novo porta-voz do Planalto, um ex-funcionário da "Veja" - mais conhecido por uma desastrosíssima defesa de seu então chefe, Antonio Palocci, que apressou aceleradamente a demissão do ministro -, declarou que a necessidade de um sistema de monitoramento dos gastos do governo "tem uma relação direta com a ascensão social de brasileiros para a classe média".

O que significa isso? Que os mais pobres não merecem ser informados de como é gasto o dinheiro que recolhem em impostos? Que é preciso ser "classe média" para ter direito a tais informações, que deveriam ser corriqueiras e fáceis de acessar? Que os trabalhadores não se importam com os negócios públicos ou são demasiado ignorantes para entendê-los? Segundo o porta-voz, a classe média "cobra mais respostas e serviços do governo".

Quem foi que disse isso a ele? Naturalmente, é a ideia que ele tem do povo - só isto e nada mais.
Da mesma forma, há alguns meses, uma autoridade revelou que o Brasil precisa de "educação e saúde de qualidade", porque agora a maioria da população era "classe média".

Os trabalhadores - e o povo em geral - não merecem uma "educação e uma saúde de qualidade"? Precisam passar à "classe média" para tê-las?

Pochmann tem toda a razão em apontar que "a interpretação de classe média (nova) resulta, em consequência, no apelo à reorientação das políticas públicas para a perspectiva fundamentalmente mercantil. Ou seja, o fortalecimento dos planos privados de saúde, educação, assistência e previdência, entre outros" (grifo nosso).

Os corifeus dessa suposta "nova classe média" estão fazendo, ainda que não tenham consciência disso, uma relação de "qualidade" com "privado" – algo inédito até alguns anos atrás, quando, por exemplo, a educação privada era chamada, aliás, com alguma justiça, de "p.p.f.p." (os mais velhos devem lembrar-se do significado dessa sigla: "papai pagou, filhinho passou").

Naturalmente, para usufruir (ou seja, ser escalpelado por) serviços privados, é preciso ser "classe média". Daí, a invenção da "nova classe média". É uma expressão totalmente ideológica, sem base alguma na realidade. Serve para colocar o Estado (isto é, o que é público) a serviço do que é privado – desde OSs e Oscips açambarcando hospitais públicos até aeroportos (que seriam privatizados, pois a "nova classe média" está viajando muito) e concessões de bolsas de estudo com dinheiro público em colégios ou escolas técnicas privadas, onde mais racional seria melhorar o ensino público, até porque a estrutura do último é imensamente maior que a do anterior.

[Antes que haja algum mal-entendido: esse não era o caso do ensino universitário depois de sua privatização por atacado no governo Fernando Henrique. Portanto, foi inteiramente justa a concessão de bolsas de estudo no âmbito do Pro-Uni, que, como ressaltou o presidente Lula, tem caráter emergencial, até que seja ampliada a rede universitária pública. Situação completamente diferente é a do ensino médio e técnico.]
Por que é preciso, do ponto de vista social, ser "classe média" para usufruir as duvidosas benesses dos serviços privados?

Porque, do ângulo dos trabalhadores, a propriedade pública é quase a única que eles possuem. Portanto, natural que eles lutem por um ensino público de qualidade ou por uma saúde pública de qualidade. A fabricação da "nova classe média" tenta eludir esse pequeno problema, instilando uma ideologia privatista - agora embuçada, pois sua forma "aberta" já foi para o brejo - na população. E nem falemos daqueles que pregam que o destino do Brasil deve ser o de tornar-se "um país de classe média".

Ora, por que o Brasil não pode ser um país de trabalhadores? O que há de errado, ou de tão ruim, em ser, simplesmente, trabalhador? Por que essa aspiração esquisita a ser "classe média", como se isso fosse um ideal de vida – e, até, o maior ideal que um cidadão do povo, um cidadão pobre, pode atingir? Em suma, por que essa rejeição a ser trabalhador, na verdade, uma rejeição ao trabalho?

BRASIL


Porém, a primeira questão que é evidente em relação a essa "nova classe média" é que ela não existe. Trata-se, apenas, de um faz de conta.

Segundo o IBGE, 75,3% das famílias vivem, no Brasil, com uma renda per capita que vai até dois salários mínimos.

Especificamente: 7,7% vivem (?) com até ¼ do salário mínimo; 15,2% ganham mais de ¼ até ½ salário mínimo; 27,6% vivem com mais de ½ até 1 salário mínimo; e 24,8% ganham mais de 1 até 2 salários mínimos (cf. IBGE, "Síntese de Indicadores Sociais

– Uma análise das condições de vida da população brasileira", Estudos e Pesquisas nº 27, Rio, 2010).

Esses dados referem-se a 2009, quando o salário mínimo estava em R$ 465. Mas, segundo os inventores da "nova classe média", ela surgiu a partir de 1993. Portanto, os dados são válidos. Em 2009, nada menos do que 75,3% das famílias atingiam, no máximo, R$ 930 de renda per capita e 50,5% chegavam, quando muito, a R$ 465, ou seja, a um salário mínimo (como ressalta o IBGE, quase um quarto, isto é, 22,9%, ganhava até metade de um salário mínimo).

Os resultados do último Censo (2010) são até mais escandalosos: metade da população brasileira tinha "rendimento médio nominal mensal domiciliar per capita" até R$ 375. Pior ainda, 25% da população recebia até R$ 188. E, ainda, 75% ganhavam somente até R$ 687 (cf. IBGE, "Indicadores Sociais Municipais do Censo Demográfico 2010", pub. 16/11/2011; e, também, IBGE, "Uma análise dos resultados do universo do Censo Demográfico 2010", p. 30).

Ressalte-se que isso não é uma estimativa baseada em pesquisas, como é o caso dos resultados de 2009. Isso é uma aferição do Censo Demográfico.

Para acrescentar mais alguma coisa a esse quadro de evidente pobreza, segundo o Censo, dos 5.565 municípios brasileiros, apenas em 283 (isto é, nos que têm mais de 100 mil habitantes) "a mediana do rendimento se aproxima do valor do salário mínimo" (IBGE, op. cit.).

Mesmo somando todos os rendimentos, inclusive os altos e altíssimos rendimentos, a média nacional não passava de R$ 668 – portanto, alguém que receba R$ 687 (o limite máximo para 75% da população) é um felizardo: está acima da média do conjunto da população.

Mais ainda: alguém que receba entre 3 e 5 salários mínimos está entre os 11,1% mais bem remunerados do país. E somente 5,1% da população recebe mais de cinco salários mínimos – o que transforma alguém que tenha um salário atual de R$ 3.200 num verdadeiro nababo...

Note o leitor que esses números refletem uma melhora, ocorrida graças à política de crescimento e recuperação do salário mínimo no governo Lula – e uma melhora substancial. Mas eles mostram um país com um povo muito, muito, mas muito pobre.

NOVA


Então, como é possível ouvir constantemente que 40 milhões de pessoas (ou seja, 21% da população) "foram incluídas na classe média". Ou, como disse o ministro da Fazenda, que "a classe E está desaparecendo, migrando para uma grande classe média que está sendo criada". Ou, ainda, como anunciou outro ministro, o sr. Moreira Franco, depois de promover um seminário sobre a neo-classe com a participação de quase todo o governo, que "hoje, 52% da população brasileira fazem parte da nova classe média" (grifo nosso).

A SAE (o Ministério do sr. Moreira Franco), aliás, só não bateu todos os recordes devido ao que veremos a seguir. Segundo seus profundos estudos, "a nova classe média brasileira é formada por 95 milhões de pessoas". O interessante é que a SAE atribui à PNAD (Pesquisa de Amostra Domiciliar, do IBGE) a origem de seus dados – no entanto, não há nada nessa pesquisa que autorize essa conclusão.

Como, então, apareceu, de repente, uma nova classe na sociedade, composta por nada menos do que 95 milhões de pessoas (ou seja, 52% da população), e ninguém, exceto alguns iluminados, notou - nem mesmo os que, presumivelmente, tiveram que ceder lugar a ela, pois as classes não costumam ascender sem que outra (ou outras) desçam a ladeira?

Na verdade, é uma "nova classe média" estranhíssima, pois, segundo a SAE, sua "renda familiar varia de R$ 1 mil a R$ 4 mil mensais".

Mil reais de renda familiar? Uma família (digamos, de quatro pessoas) com essa renda deve ou estar passando fome, ou atrasando o aluguel, ou as prestações da televisão ou da geladeira, ou a conta de luz – ou tudo ao mesmo tempo. No entanto, seus membros não devem se preocupar; pelo contrário, devem comemorar, pois agora foram promovidos de classe, pertencem à "nova classe média". Portanto, supõe-se, deixaram de ser pobres. E assim o mundo gira e a Lusitana roda...

CLASSE


Entretanto, o nome do sr. Moreira Franco não desperta em muitos – com ou sem razão – o aguçamento do espírito científico. Vejamos, então, o que diz o patrocinador acadêmico da "nova classe média", o sr. Marcelo Neri, do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas (CPS/FGV).

Entre outras iniciativas, Neri coordenou uma pesquisa sobre o assunto, publicada em livro de 100 páginas e intitulada "Os Emergentes dos Emergentes – Reflexões Globais e Ações Locais Para a Nova Classe Média Brasileira", que apareceu em junho do ano passado.

Limitemo-nos a duas observações de Neri et alii sobre a "nova classe média", pois são suficientes. O mais é, como dizem os juristas, perfunctório.

A primeira observação:

"O grande símbolo da nova classe média é a carteira de trabalho" (op. cit., pág. 11).

A carteira de trabalho existe desde 1943, portanto, quase 70 anos antes do sr. Neri publicar a sua pesquisa ou de ter descoberto a "nova classe média". Sempre foi um símbolo do trabalhador e da proteção das leis (e do Estado) ao trabalho. O que habitualmente se chama "classe média" no Brasil, em especial seus segmentos udenistas (ou tucanos), sempre a detestou, por sua vinculação com Getúlio Vargas – no governo de quem ela foi criada – e com o trabalhismo nacional-desenvolvimentista.

Por que cargas d’água, agora ela seria "o grande símbolo da nova classe média"?

Simplesmente porque o que se está chamando de "nova classe média" são os trabalhadores que, desempregados durante o desgraçado período tucano, ou subempregados, marginalizados no mal chamado "trabalho informal", conseguiram emprego formal (ou seja, com carteira assinada) devido à política de crescimento no segundo mandato do presidente Lula.

Se não fosse isso, seria impossível explicar porque, segundo a pesquisa do sr. Neri, a carteira de trabalho rebrilhou como um símbolo de primeira grandeza (aliás, "o símbolo"), tantas décadas depois de criada e institucionalizada.

O porquê de chamar esses trabalhadores de "nova classe média" é uma questão meramente ideológica – mas não sem significado prático -, a que já nos referimos e chamamos a atenção do leitor no início deste artigo. Existe, ainda, outra motivação, a que nos referiremos no final do texto.

Passemos, agora, à segunda observação do sr. Neri e colegas:

"... cerca de 39,6 milhões ingressaram nas fileiras da chamada nova classe média (Classe C) entre 2003 e 2011 (59,8 milhões desde 1993). (…) A mesma que atingia 50,45% da população brasileira em 2009, passa agora a 55,05% em 2011. Traduzindo em números absolutos, atingimos a marca de 100,5 milhões de brasileiros que têm renda entre 1.200 e 5.174 reais, sendo esta a classe dominante no sentido populacional" (op. cit., página 35, grifos nossos).

Não se pode acusar o sr. Moreira Franco de excessivo entusiasmo com a "nova classe média". Se ele achou 52% da população na "nova classe média", o outro já achou 55,05% - número, aliás, muito preciso, com até mesmo duas casas decimais. Se Franco encontrou 95 milhões de pessoas (!) na "nova classe média", o sr. Neri, com todo o seu aparato metodológico, encontrou 100,5 milhões de pessoas (!!). É até de se perguntar porque essa nova classe é "média".

Mas, para pertencer à sua "nova classe média", o sr. Neri exige do cidadão que ele tenha renda de R$ 1.200. Se isso é uma renda de "classe média", então, a favela da Maré deve ser o éden da "nova classe média" (o autor destas linhas, que fez o seu trabalho de campo em epidemiologia na favela da Maré, tem certeza que o excelente pessoal de lá vai ficar ofendido, quando souber que agora é "classe média").

No entanto, façamos justiça – ele não esconde que a sua "nova classe média" é apenas a "classe C" das pesquisas do Ibope.

LUTA


O termo "classe média" ("middle-class") era usado pelos ingleses, na época de Marx, para descrever a burguesia – uma classe que ficava entre a nobreza e o proletariado, portanto, era a classe "do meio", daí "classe média".

No Brasil ela sempre teve outro significado, embora correlato com esse: designa a pequena-burguesia urbana, que tem base econômica na pequena propriedade, da qual a pequena-burguesia assalariada (por exemplo, médicos e outros profissionais universitários) é, a rigor, uma extensão histórica.

Na inexistência, após a queda do Império, de algo parecido com a nobreza, essa é a classe "do meio" em nosso país.

Que utilidade tem chamar de "classe média" (ou de "nova classe média") uma parcela dos trabalhadores, inclusive trabalhadores muito pobres, como são os que ganham R$ 1.200, ou, que seja, dois ou três salários mínimos?

Além da que já nos referimos – incutir nessas parcelas da população uma ideologia privatista, individualista até as vísceras – há outra, diretamente relacionada: considerar a situação do país, e especialmente a do povo, melhor (aliás, muito melhor) do que ela realmente é.

Este é um país de pobres, que precisa mudar, e mudará, mas, para isso, é necessário que a luta dos trabalhadores e do povo brasileiro enfrente os problemas reais, por mais difíceis que eles sejam.

Abafar essa luta, promovendo, no papel – e na mídia – os pobres a outra coisa diferente do que eles são, é tudo de que não precisamos. Pode ser que cultive, por algum tempo, o sossego de alguns. Mas a fuga para as ilusões sempre cobra um preço muito alto – e doloroso.

Por último, restaria mencionar a mediocridade de tal ideal. Por que os trabalhadores iriam querer ser "classe média", se não é daí que se espera nada de brilhante, pelo contrário? Nem mesmo os inúmeros cidadãos decentes que pertencem ao que se chama de "classe média" têm como objetivo na vida ser classe média – geralmente, é na medida que não têm essa meta que eles contribuíram, contribuem e contribuirão para construir um Brasil justo, independente e próspero.

Por quê?

Porque o problema é que o ideal de ser "médio" é o mesmo que ser medíocre.