BRASIL PRA FRENTE

BRASIL PRA FRENTE!
O RIO DE JANEIRO DE PÉ PELO BRASIL!





















sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009


O testemunho do mais eminente ministro da Agricultura soviético

Benediktov: A URSS na época de Stalin e depois dele - (1)


Em 1980, o jornalista soviético V. Litov preparava alguns programas radiofônicos sobre a Índia com Ivan Alekssandrovitch Benediktov, ex-embaixador da URSS naquele país. Porém, em suas conversas com Benediktov, conta o jornalista, “não consegui conter-me e comecei a colocar para Ivan Alekssandrovitch questões sobre um tema que me interessava mais”.

O tema era o passado e o presente da URSS. Benediktov havia sido ministro (comissário do povo) da Agricultura de 1938 a 1943 e, depois, de 1946 a 1955; ministro dos Sovkhozes (as fazendas estatais) de 1955 a 1957; outra vez ministro da Agricultura de 1957 a 1959, antes de ser nomeado embaixador na Índia (1959-1967) e na Iugoslávia (1967-1970). Portanto, convivera pessoalmente com Stalin, Molotov, Kaganovitch e outros dirigentes da época em que a URSS construía o socialismo, assim como Kruschev e algumas figuras que ficaram conhecidas posteriormente.

Operário têxtil na época da Revolução Russa, Benediktov formou-se em engenharia agronômica e economia agrícola em 1928 e foi um dos pioneiros da coletivização da agricultura no Usbequistão, onde exerceu a vice-presidência da república. No cargo de comissário do povo, foi o responsável pela formação dos estoques agrícolas soviéticos que alimentaram o país durante a II Guerra Mundial.

A partir de 1953, ficou conhecido por suas divergências com Kruschev, que assumiu a primeira-secretaria do PCUS após a morte de Stalin, sobre a condução da agricultura. Já nesse ano, seu plano de aumentar a produtividade das áreas agrícolas é rejeitado por Kruschev, que prefere o aumento extensivo da produção – através da exploração nas então chamadas “terras virgens”.

Porém, somente seis anos depois Benediktov é afastado do ministério. Começa, então, sua trajetória na diplomacia.
Em 1981, Litov terminou suas entrevistas com Benediktov, que morreria em 1983. Porém, essas entrevistas somente foram publicadas em 1989, na revista “Molodaya Gvardia”. Como explica Litov, “Ivan Alekssandrovitch não se opôs à publicação das suas declarações, apesar de duvidar fortemente que tal fosse possível. Nisto verificou-se que tinha toda a razão: todas as minhas tentativas de ‘colocar’ a entrevista numa revista literária, mesmo na versão mais truncada, resultaram num fracasso. No entanto, apesar de ter perdido uma esperança real, continuei a insistir: pretendia demonstrar ao antigo comissário do povo que as suas apreciações pessimistas eram inconsistentes e, eventualmente desse modo, fixar um alicerce para o prosseguimento ulterior do tratamento literário das suas memórias. Passados alguns meses após ter recebido mais uma rejeição por parte da redação de uma conhecida revista, Ivan Alekssandrovitch faleceu... As motivações para continuar a luta caíram por si próprias e entreguei o original ‘à crítica roedora dos ratos’”.

Naturalmente, como Benediktov esclarece em suas entrevistas concedidas a Litov, os revisionistas acusavam Stalin daquilo que eles próprios faziam – no caso, tentar abafar um testemunho de inestimável importância histórica. Ao não conseguir responder ao tranquilo depoimento do ministro da Agricultura de Stalin, uma demolidora denúncia dos falsificadores da História – mais demolidora ainda porque seu entrevistador está em posição oposta ao entrevistado – eles o suprimiam, como se isso apagasse a verdade dos fatos. Sobre esta, o leitor poderá julgar por si mesmo.

A tradução das entrevistas de Benediktov pode ser encontrada no excelente site “Para a história do socialismo” (http://hist-socialismo.blogs.sapo.pt). O texto que hoje iniciamos a publicação foi adaptado ao português do Brasil.

C.L.

LITOV - Desde o final dos anos 70 que se observa uma queda evidente na nossa economia. Nos documentos oficiais ela é explicada quer por dificuldades objetivas, quer por falhas subjetivas. A maioria dos cientistas e especialistas considera que a raiz do mal está na ausência de um autêntico mecanismo econômico de desenvolvimento e gestão da economia e, em especial, da introdução dos avanços científico-tecnológicos... Gostaria de conhecer a opinião de um homem que ocupou um importante cargo na nossa economia num período em que esta registrava das maiores, se não as mais elevadas taxas de crescimento do mundo...

BENEDIKTOV - Temo decepcioná-lo com o meu “conservadorismo” e “dogmatismo”. Considero que o sistema econômico vigente em nosso país até os anos 60 poderia ainda hoje garantir elevadas e estáveis taxas de crescimento, uma orientação firme para a eficácia e qualidade e, como consequência natural, a elevação constante do bem-estar de largas camadas de trabalhadores. Claro, a vida é a vida, algumas coisas teriam de ser mudadas e renovadas. Mas isto refere-se apenas a alguns estrangulamentos e pormenores porque, em geral, o amaldiçoado, pelos economistas, “sistema stalinista”, como você corretamente observou, demonstrou uma alta eficácia e vitalidade. Foi graças a ele que, no final dos anos 50, a União Soviética era em termos econômicos e sociais o país mais dinâmico do mundo. Um país que partiu convictamente do seu atraso, aparentemente insuperável face às potências capitalistas mais desenvolvidas, mas que em alguns setores-chave do progresso científico-tecnológico catapultou-se à frente. Basta recordar as nossas realizações no espaço, o desenvolvimento para fins pacíficos da energia atômica, os êxitos nas ciências fundamentais.

Enganam-se aqueles que pensam que nós conseguimos tudo isto à custa de fatores extensivos e quantitativos. Nos anos 30 e 40, e mesmo nos 50, a tônica, quer na indústria quer na agricultura, colocava-se não na quantidade mas na qualidade; os indicadores mais importantes e decisivos eram o crescimento da produtividade do trabalho mediante a introdução de novas máquinas e a redução dos custos de produção. Estes dois fatores foram colocados na base do crescimento econômico, eram eles que determinavam a avaliação e promoção dos dirigentes econômicos, era exatamente isto que se considerava como o mais importante e como uma decorrência direta dos ensinamentos do marxismo-leninismo. Claro que, hoje, tal “rigidez” e linearidade parecem um pouco ingênuas e também é verdade que naquela altura produziram determinados efeitos negativos. Mas no conjunto a orientação foi tomada de forma inteiramente correta, o que é demonstrado pela experiência das atuais empresas americanas, da Alemanha Ocidental e japonesas, muitas das quais já planificam não só o crescimento da produtividade do trabalho, mas também a redução dos custos de produção num horizonte de vários anos...

O mesmo pode ser dito sobre a esfera social e o clima político-ideológico na sociedade. A massa fundamental dos cidadãos soviéticos estavam satisfeitos com a vida e olhavam para o futuro com otimismo, acreditavam nos seus dirigentes. Quando Khruschev lançou o objetivo de alcançar a mais alta produtividade do trabalho no mundo e atingir as mais avançadas fronteiras no campo do progresso científico-tecnológico, poucos duvidaram do êxito final, tão grande era a convicção nas suas forças e na capacidade de alcançar e ultrapassar a América.

Mas Khruschev não era Stalin. Um mau capitão é capaz de fazer encalhar o melhor navio. Foi o que aconteceu. Os nossos capitães primeiro perderam o rumo, falhando nos ritmos estabelecidos, depois começaram a saltar de um extremo para o outro e a seguir deixaram mesmo escapar o leme das mãos, deixando a economia num impasse. Como não desejavam reconhecer abertamente a sua incapacidade, claramente incompatível com [seus] altos cargos, lançaram a culpa no navio, no “sistema”, montando uma ininterrupta linha de produção de decisões e resoluções sobre o seu “desenvolvimento” e “aperfeiçoamento”.

Por seu lado, os “teóricos” e cientistas começaram a justificar esse carrossel de papel com “inteligentes” considerações sobre um alegado “modelo econômico otimizado”, que, por si próprio, asseguraria de forma automática a resolução de todos os nossos problemas. Aos dirigentes bastaria sentar na cabine de comando desse “modelo”, apertando de tempos a tempos um ou outro botão. Uma ilusão absurda, puramente de gabinete, acadêmica!

LITOV - No entanto, até Lenin incentivou as experiências, a busca de soluções otimizadas...

BENEDIKTOV - Não tem propósito a citação que você faz de Ilitch [Lenin], nenhum propósito. A tendência para as reorganizações e reformas, o constante prurido reestruturador foi classificado por Lenin como o mais infalível sinal de burocratismo, quaisquer que sejam as roupagens “marxistas” de que se veste. Não se deve alvoroçar o povo com “rupturas de sistema” e reorganizações, avisou Vladimir Ilitch ainda no início dos anos 20, recrutem-se pessoas e controle-se a execução real das tarefas, isto será valorizado pelo povo. Este importantíssimo, talvez o mais importante ensinamento leninista sobre como governar, o qual atravessa literalmente todas as últimas obras, notas e documentos de Ilitch, na prática (em palavras é claro que todos estão a favor) está hoje esquecido. Por que nos surpreendemos então que, apesar da avalanche de “amadurecidas” resoluções e reorganizações, as coisas vão de mal a pior em nosso país?

Durante o tempo de Stalin, a palavra de ordem “os quadros e o controle resolvem tudo” era aplicada à vida de forma consequente e firme. Apesar de evidentes erros e falhas (quem não os tem?), foram resolvidas todas as tarefas históricas maiores que se colocaram ao país, seja a criação das bases econômicas do socialismo, a derrota do fascismo ou a reconstrução da economia nacional. Nomeie-me nem que seja apenas um problema, social ou econômico, que Khruschev e os seus sucessores tenham conseguido, já não digo resolver, mas pelo menos atenuar. Por todo o lado o que vemos é toneladas de papel e gramas de obra, não se vê avanço real. Pelo contrário, estamos cedendo posições conquistadas...

Compreenda bem o que lhe digo. Eu não sou contra as reformas ou reorganizações enquanto tais. Eu sou contra que se concentrem nelas as atenções, esperando que mais uma resolução produza resultados milagrosos. É preciso diminuir dez vezes o número de tais resoluções e reorganizações e canalizar todas as forças para um trabalho meticuloso, duro, rotineiro na realização de poucas mas rigorosas e concretas tarefas. Então, sim, surgem os resultados milagrosos, reforça-se a confiança do povo no partido, a qual, infelizmente, está mais abalada a cada ano que passa. Refira-se que aqui não estou descobrindo a América. Era exatamente neste espírito que trabalhava o aparelho estatal-partidário nos chamados anos do “culto à personalidade”. Penso que não é em vão, mas antes com bastante sucesso, que a experiência daqueles anos é estudada por dirigentes das maiores corporações monopolistas do Ocidente.

LITOV - Ivan Alekssandrovitch, perdoe-me pela franqueza, mas as suas considerações parecem-me demasiado simplistas. Depreende-se das suas palavras que, em última instância, tudo depende de quem está à frente do país... Não se estará a atribuir dessa forma uma espécie de força demoníaca ao fator subjetivo, o que, sem dúvida, contraria os pressupostos fundamentais do marxismo-leninismo?...

BENEDIKTOV - Lenin, segundo a sua lógica, “contrariou os pressupostos fundamentais do marxismo-leninismo” quando, após o fim da guerra civil, declarou que para a vitória do socialismo na Rússia era apenas necessário “nível cultural” dos comunistas. Em outras palavras, aptidão para governar o País, em relação ao que [os comunistas] eram “gotas d’água num mar de povo”. Isto era afirmado em condições de uma terrível destruição, fome, de um atraso medieval no campo, numa situação em que o País, citando as palavras de Lenin, lembrava “um homem espancado até à morte”!

A esmagadora maioria dos cientistas e especialistas, tanto na Rússia como no exterior, hipnotizados pelos chamados “fatores objetivos”, apelidavam publicamente o plano de Lenin de “uma ilusão doentia”, uma aposta nas “forças demoníacas do partido bolchevique”. Os demônios são demônios, mas o fato é que nós construímos o socialismo em prazos curtíssimos, apesar de todos as “sábias corujas”, com os seus graus e títulos acadêmicos.

Mas as analogias históricas não convencem ninguém. É preferível falar do presente. Mesmo no atual sistema econômico, temos dezenas de empresas, quer na indústria quer na agricultura, que estão ao nível mundial e em certos aspectos até o superam. Veja, por exemplo, a unidade de construção metalomecânica em Ivanov, dirigida por Kabaidze, ou o famoso kolkhoz do presidente Bedulia.

A condição mais importante, decisiva para o êxito dos setores mais avançados (navios-capitânea) da nossa economia é o nível de direção, a competência profissional do diretor ou do presidente. Se Kabaidze ou Bedulia não prepararem os seus sucessores, tudo começará a descarrilhar, resvalando para o nível medíocre e cinzento que predomina no nosso país. Daqui conclui-se que a raiz do mal não está no sistema econômico existente, nas condições que oferece às pessoas com talento, capazes de fazerem milagres (!), mas no que se costuma designar como “fator subjetivo-pessoal”. Muito se fala entre nós sobre o aumento do papel deste fator no socialismo. Trata-se de fato de uma constatação correta, só que o papel deste fator não pode ser entendido de forma simplista e cor-de-rosa. Um dirigente inteligente e competente acelera substancialmente o desenvolvimento de uma empresa, de um ramo, de um país; da mesma forma que um fraco e medíocre o trava e o atrasa gravemente. Por isso, os quadros dirigentes têm de ser submetidos a uma exigência rígida e a um controle constante e global da sua evolução profissional, ideológica, moral e política. Sem isto o socialismo não só não se realiza como, pelo contrário, perde a sua superioridade histórica.

Falar da criação de um “novo sistema” é falar de um sistema de grande escala, amplamente disseminado e profundamente refletido, de revelação, promoção e estimulação da evolução de pessoas talentosas em todos os escalões de direção, quer estatais quer partidários. Se conseguirmos preparar e “munir” os altos objetivos com algumas dezenas de milhares de Kabaidze e de Bedulia, o país realizará uma forte arrancada. Se não, continuará a marcar passo ao som da fanfarra das habituais resoluções e reorganizações. A principal tarefa partidária e, em grande parte, do aparelho de Estado, deve consistir exatamente na descoberta e promoção de pessoas com talento. Ora, neste momento só se pensa nisto quase em último lugar, dedicando-se praticamente todo o tempo à preparação das habituais decisões e resoluções e de sonoras iniciativas para as propagandear.


Porém, mais do que isso, as pessoas talentosas e brilhantes são preteridas em favor dos obedientes, dóceis e medíocres que irrompem agora até em cargos ministeriais. E quando “em cima” tudo está de pernas para o ar, “em baixo” as coisas não andam. Não me surpreendo em nada com o aumento do descontrole nos processos econômicos e sociais na sociedade, com o enfraquecimento da disciplina, da consciência e responsabilidades dos trabalhadores comuns, com a disparada do que hoje se costumam chamar de “fenômenos anti-socialistas”. Repito, a principal causa dos nossos males está na baixa abrupta do nível da direção partidária-estatal, no esquecimento dos geniais ensinamentos de Lenin sobre a seleção dos quadros e o controle de execução como instrumento fundamental e decisivo de influência partidária.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Ação demo-tucana no TSE visa “interditar” as obras que beneficiam ao povo, afirma Dilma
A ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, afirmou, nesta quarta-feira (17), que “é inadmissível que, em um momento de crise, alguém se coloque contra iniciativas para combater a própria crise”. A declaração da ministra foi feita em resposta ao recurso apresentado pelo DEM e o PSDB ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral) contra a sua presença à frente das obras do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento).
“Acho absolutamente incorreta essa visão de que estamos fazendo campanha. É estranho que essa tentativa sempre ocorra quando há políticas do governo sendo implantadas. E são políticas que beneficiam o Brasil”, declarou a ministra, após fazer uma exposição sobre o PAC na sede da central Força Sindical.
Para a ministra, a oposição “tem o intuito, sobretudo, de interditar o governo”. “Acho que, diante do volume de obras e iniciativas que nós temos e do fato de que fomos capazes de entregar R$ 100 bilhões ao BNDES mostra que não temos uma relação clássica que eles tiveram diante da crise. Diante da crise, eles mandaram cortar investimentos, cortar salários e recorreram ao Fundo Monetário. A crise no Brasil foi vivida sempre como um momento de ajuste fiscal”, disse Dilma.
Para o presidente Lula é natural que a oposição esperneie, mas “a ministra Dilma tem que trabalhar”. “É legítimo que Dilma vá em todas as inaugurações das obras do PAC no Brasil, afinal ela é gestora do projeto”, disse o presidente. Diante da comparação feita por um auxiliar de que José Serra (PSDB) também teria participado de um evento no Paraná, Lula respondeu que até isso é diferente. “É bem diferente, porque ele não tem obra no Paraná para verificar”, afirmou o presidente.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Das dificuldades de Obama (2)
O falecido senador norte-americano William Fullbright, durante mais de 30 anos um dos melhores parlamentares dos EUA, disse uma vez que "criamos uma sociedade cuja principal ocupação é a violência. A maior ameaça para o nosso país não é uma qualquer força exterior, mas o nosso próprio militarismo. Temos a amarga impressão de que nós, os americanos, estamos habituados à guerra. Já há muitos anos que, ou bem estamos em guerra ou então prestes a desencadear uma, não importa em que região do mundo. A guerra e o militarismo tornaram-se uma parte inseparável do nosso quotidiano, e a violência o produto principal da nossa economia" (V. seu livro "The Arrogance of Power").
Realmente, a história dos EUA são uma série tão grande de atropelos e agressões a outros países, promovidos por uma casta dominante que já era imperialista antes do surgimento dos monopólios capitalistas (v. nossa edição anterior), que às vezes demanda um esforço que não é pequeno perceber em que aspectos do passado o povo norte-americano pode se basear para construir uma nação irmã - e não algoz - das outras nações e justa para com seus próprios cidadãos.
No entanto, esses aspectos, de que o povo norte-americano pode se orgulhar, existem. Por exemplo, em relação a seus presidentes, é verdade que os norte-americanos tiveram na Casa Branca uma quantidade incomum de fariseus (Quincy Adams, Herbert Hoover), trogloditas (James Polk, Theodore Roosevelt) e/ou meras mediocridades (citar um exemplo aqui seria cometer alguma injustiça). Também existiram alguns presidentes que quase poderiam ter sido extraordinários (Woodrow Wilson, John Kennedy), não fossem limitações pessoais ou porque não os deixaram ser.
Mas os norte-americanos, apesar disso, tiveram dois grandes presidentes - Abraham Lincoln e Franklin Delano Roosevelt.
A esse propósito, é muito positivo que o atual presidente, Barack Hussein Obama, tenha tomado esses dois, justamente os maiores de seus antecessores, como modelo. Mas, para isso, é necessário ser coerente com o que de melhor existe na história dos EUA. Não se podem misturar alhos democráticos com bugalhos imperialistas - sob pena de renunciar à herança dos primeiros.
Por exemplo, em seu discurso de posse, Barack homenageou os que "por nós, combateram e morreram, em lugares como Concord e Gettysburg, Normandia e Khe Sanh".
Tudo bem em relação a Concord, Gettysburg e a Normandia. O problema é: o que está Khe Sanh fazendo nessa lista?
Concord, no Estado de Massachusetts, foi, em 19 de abril de 1775, o lugar da primeira batalha da guerra de independência contra o domínio inglês. Nessa cidade foi organizada a guerrilha dos "minutemen", que, apesar da desigualdade de forças, fez o exército britânico recuar para Boston, logo em seguida sitiada, na primeira fase da Revolução Americana.
Em Gettysburg, na Pennsylvania, foi travada, durante os três primeiros dias de julho de 1863, a batalha mais gloriosa da história dos EUA e a mais sangrenta da Guerra Civil. Nela, o Exército do Potomac, depois de uma série de derrotas para os escravagistas confederados, com um histórico de generais vacilantes e/ou incompetentes, e com um comandante nomeado, por decisão pessoal de Lincoln, apenas três dias antes - George Meade, o melhor caráter entre todos os generais dessa guerra - barrou a invasão do Norte por parte do general sulista Robert Lee. A batalha de Gettysburg foi a virada na guerra civil, onde até então o exército sulista estava em ofensiva - com a capital do país, Washington, localizada dentro do estado sulista da Virgínia, em perigo. Depois de Gettysburg, nunca mais os sulistas conseguiram sair da defensiva - o que, após a nomeação de Grant, que estabeleceu seu comando geral junto às tropas de Meade, possibilitou, dois anos depois, a vitória da União e o fim do escravismo nos EUA.
Gettysburg é também conhecida pelo discurso de Lincoln, o mais notável (e mais ignorado) discurso da história dos EUA, proferido na homenagem aos mortos da batalha, em novembro de 1863. Numa cerimônia para a qual não havia sido convidado - foi promovida pelo governador do Estado - e na qual teve de aguentar mais de duas horas de arenga por parte do orador oficial, um acadêmico contratado pelo governo da Pennsylvania, o presidente Lincoln, em menos de dois minutos, definiu a Guerra Civil como o ponto de partida para uma democracia verdadeira nos EUA: "Somos, antes, nós, os vivos, que devemos consagrar-nos à tarefa inacabada que aqueles que aqui lutaram fizeram avançar tanto e tão nobremente. Somos, antes, nós, os que devemos consagrar-nos aqui à grande tarefa que ainda permanece diante de nós: que, destes mortos aos quais honramos, tomemos e aumentemos nossa devoção à causa pela qual eles deram até a última medida plena de devoção; que resolvamos aqui, firmemente, que estes mortos não morreram em vão; que esta nação, sob Deus, terá um novo nascimento da liberdade; e que o governo do povo, pelo povo, para o povo, não sucumbirá nesta terra".
A Normandia, naturalmente, é a parte da França onde os norte-americanos e os ingleses desembarcaram em 1944, para abrir, finalmente, a segunda frente contra os nazistas. Até então a luta contra Hitler havia sido sustentada, à custa de milhões de mortos, pelo Exército Vermelho - apesar dos vários apelos soviéticos, em especial de Stalin, pela abertura da segunda frente na Europa. É justo observar que o dirigente ocidental mais sensível aos apelos soviéticos foi o presidente dos EUA, Franklin Delano Roosevelt, que, entre ingleses e americanos, realizou o principal empenho para o desembarque e pela abertura da segunda frente.
Nada disso - nem Concord, nem Gettysburg, nem a Normandia - têm algo a ver com Khe Sanh e a agressão ao Vietnã, onde os invasores norte-americanos mataram, segundo seus próprios números (as estatísticas vietnamitas são maiores), 1 milhão e 400 mil vietnamitas, mutilaram 1 milhão e 800 mil - sem contar as vítimas de anomalias genéticas devidas ao "agente laranja", e outras barbaridades -, apesar de, nem por isso, conseguirem submeter um povo que havia decidido ser livre.
Khe Sanh foi, além disso, uma derrota humilhante dos imperialistas, onde o general Giap atraiu os invasores, que esperavam que ele usasse a mesma tática com que, em 1954, derrotara os franceses em Dien Bien Phu. Com a atenção dos norte-americanos concentrada em Khe Sanh, Giap desfechou a ofensiva em todo o sul do Vietnã - que ficou conhecida como "a ofensiva do Tet", o ano novo lunar da tradição vietnamita, a maior e mais desastrosa derrota militar dos EUA desde a guerra da Coréia.
Em Concord, Gettysburg e na Normandia os norte-americanos estavam, realmente, lutando pela liberdade, antes de tudo pela sua liberdade, ainda que também tenham contribuído para a liberdade de outros povos.
No Vietnã, as tropas norte-americanas (meio milhão de soldados, uma esquadra inteira e o maior contingente de bombardeiros até então reunido) estavam perpetrando uma agressão imperialista das mais covardes que já houve na história do mundo. Eram hordas que não estavam "combatendo e morrendo" pelos norte-americanos, mas tentando escravizar um país pobre e pequeno, situado a dezenas de milhares de quilômetros dos EUA, e, como esse país não se submetia, tentando apagar seu povo da face da Terra.
Naturalmente, levaram o troco - aliás, bastante modesto, comparado ao que sofreu o povo vietnamita para expulsá-los de lá: morreram 60.159 norte-americanos e 300 mil foram feridos. Mas foi uma agressão tão covarde, criminosa - e tão mal sucedida - que o próprio povo norte-americano levantou-se contra ela. Uma agressão, inclusive, ilegal até do ponto de vista dos EUA, pois a Casa Branca, para obter a aprovação parlamentar, mentiu ao Congresso, falsificando o chamado "incidente do golfo de Tonkin".
Tal como na questão da "liderança dos EUA", abordada em nossa última edição, é impossível que Obama não saiba o que significou a guerra do Vietnã. No entanto, em seu discurso de posse, optou por fazer uma concessão ao belicismo imperialista, misturando coisas que não se podem misturar. Muitas vezes é justo fazer alguma concessão. Porém, há concessões e concessões. E, sem dúvida, não será possível recuperar os EUA fazendo concessões de princípio aos verdadeiros inimigos do país.
C.L.
Das dificuldades de Obama

Em seu discurso de posse, o presidente Obama afirmou: "Estamos prontos para liderar mais uma vez".
Sabemos que não é fácil ser presidente de um país em que faz parte da cultura abater a tiros presidentes e personalidades influentes que não se ajustam bem ao figurino concebido por suas classes dominantes.
Mas não podemos deixar de registrar que o pensamento exposto, longe de sintonizar as melhores tradições americanas, evoca as piores.
Em 1909, quando assumiu o governo, o presidente Howard Taft declarou: "Todo o hemisfério ocidental nos pertencerá, de fato, devido à superioridade de nossa raça, pois moralmente já nos pertence".
Mas não foi ele quem inventou a receita. Naquela altura do campeonato, os EUA haviam efetuado 31 intervenções militares no hemisfério: Porto Rico, Argentina, Peru, México, Nicarágua, Uruguai, Panamá, Colômbia, Cuba, República Dominicana e Honduras já haviam provado o gosto amargo desse desejo de liderança "moral".
Na verdade, a idéia de que os EUA têm por missão liderar é muito antiga. É inclusive anterior à formação do capital monopolista que, como a história já demonstrou à exaustão, empurra seus respectivos Estados nacionais para além das fronteiras a fim de que ele possa servir de suporte à conquista de novos mercados, que absorvam o capital excedente, e ao controle das fontes de matérias primas.
O presidente James Buchanan (1857-1861) afirmava: "A expansão dos EUA sobre o continente americano, desde o Ártico até a América do Sul, é o destino de nossa raça. E nada pode detê-lo". E ele, por sua vez, estava ancorado a uma sólida tradição de expansionismo que já havia custado ao México boa parte de seu território.
O New Orleans Creole Courier, em 1855, expressava a idéia nos seguintes termos: "A pura raça anglo-americana está destinada a estender-se por todo o mundo com a força de um tufão. A raça hispano-mourisca será batida".
Em julho 1845, o jornalista John O'Sullivan cunhou o termo "Destino Manifesto", num editorial do United States Magazine and Democratic Review, como expressão sintética do dogma corrente de que, sendo o povo dos EUA eleito por Deus para comandar o mundo, o expansionismo seria apenas decorrência do cumprimento da vontade Divina.
Ele achava natural afirmar que "o Texas foi absorvido pela União no processo de cumprimento da lei geral que está levando nossa população em direção ao Oeste. Ele foi arrancado do México de acordo com o curso natural dos eventos. O braço avançado do irresistível exército da emigração anglo-saxônica já começou a se estender sobre a Califórnia".
Artistas e intelectuais não estiveram imunes à crença.
Em 1849, o escritor Herman Meville (Moby Dick) afirmava: "Nós americanos somos um povo peculiar, escolhido, o Israel de nosso tempo; carregamos a arca das liberdades do mundo. O resto das nações precisa, brevemente, estar na nossa retaguarda".
Antes disso, o poeta Walt Withman havia expressado o mesmo ideal sem maior preocupação com a sutileza: "O que tem a ver esse México miserável e ineficiente – com suas superstições, com sua paródia de liberdade, sua tirania real de poucos sobre muitos – que tem ele a ver com a grande missão de povoar o novo mundo com uma raça nobre? Que seja nosso lograr essa missão".
Caminhando um pouco mais em direção à origem da crença, vamos encontrar em Emerson – celebrado como grande pensador e filósofo naquele país - a seguinte reflexão: "Certamente, a forte raça britânica, que já conquistou grande parte desse território, deve também apoderar-se daquele pedaço [Texas], e do México e do Oregon, e, com o passar das eras, os métodos segundo os quais isso foi feito será de pouca importância. A América é o último esforço da divina providência em favor da raça humana".
Portanto, antes mesmo que o capital monopolista se formasse nos EUA e impulsionasse a expansão imperialista, a burguesia americana havia associado o seu destino ao expansionismo. Ampliar as bases para o desenvolvimento capitalista, que interessava ao Norte, sem desestruturar as relações escravistas e os vínculos do Sul com a economia inglesa, seria resolvido através da conquista de novos territórios, associada à imigração maciça de colonos europeus.
Tal era o projeto que levava, em 1828, o representante dos EUA na Colômbia, Beaufort Watts, a fazer considerações pouco diplomáticas sobre o povo do país: "O colombiano típico é um animal obediente que se torna ainda mais submisso quando castigado". Ou Quincy Adams a afirmar, em 1823, dois anos antes de assumir a presidência da República: "Estas ilhas [Cuba e Porto Rico] são apêndices naturais do continente norte-americano, e uma delas - quase visível a olho nu de nossas costas - tornou-se por muitas considerações um objeto de importância transcendental para os interesses políticos e comerciais da nossa União. É difícil resistir à convicção de que a anexação de Cuba por nossa república Federal será indispensável à continuidade e à permanência de nossa própria União". Ou, ainda, Alexander Scott, representante dos EUA na Venezuela, a dizer em carta a James Monroe ("A América para os americanos" – do Norte), em 1812, um ano após a revolução contra o domínio espanhol, liderada por Miranda: "O povo do país é tímido, indolente, ignorante, supersticioso, incapaz de esforço e desprovido de iniciativa".
O segundo presidente dos EUA, John Adams, que foi vice de George Washington, dizia em carta a Thomas Jefferson: "Um governo livre e a religião católica romana não poderão jamais coexistir, em qualquer país. Qualquer projeto de conciliar essas duas coisas na velha ou na nova Espanha é utópico, platônico e quimérico. E é do meu entendimento que na nova Espanha as coisas são piores, se isso é possível".
Não é à-toa que seu filho, Quincy Adams, tenha escrito em seu diário, aos 12 anos de idade: "Os espanhóis são vadios, sujos e malvados, em suma, seria justo compará-los a uma vara de porcos".
Obama desconhece isso? É claro que não.
A maior tragédia que se abateu sobre os EUA foi o encontro dessa ideologia expansionista e racista com os interesses dos monopólios. Produziu um imperialismo cretino, encardido e difícil de erradicar.
Mas, numa avaliação otimista, talvez possamos dizer que, com essa singela declaração, Obama tenha simulado um recuo para surpreender o adversário pela retaguarda.
Às vezes dá certo. Mas quase sempre, não.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009


Cesare Battisti: por que tanta polêmica?
A polêmica em torno da decisão do governo brasileiro de conceder asilo político a Cesare Battisti – ex-membro de uma organização de esquerda nos chamados ‘anos de chumbo’ na Itália – só pode ser entendida se a considerarmos como absolutamente política e não técnica.
O presidente Lula que não goza nem um pouquinho da simpatia da mídia monopolista brasileira, colocou os pingos nos is, fechando as portas para as tentativas do governo italiano de continuar interferindo em assuntos internos do Brasil. Mesmo assim, a polêmica continua.
Nossa “decisão está amparada na Constituição brasileira (Artigo 4º, X), na Convenção de 1951 das Nações Unidas relativa ao Estatuto dos Refugiados e na legislação infraconstitucional (Lei 9474/97).
A concessão do refúgio e as considerações que a acompanharam restringem-se a processo concreto, tendo sido proferida com fundamento nos elementos e documentos constantes num procedimento específico”, disse Lula. Ou seja, trata-se de uma questão de soberania nacional e ponto final.
O ministro Tarso Genro, antes de sua decisão de conceder o asilo político a Battisti, recebeu um abaixo-assinado com cerca de 400 assinaturas de escritores, professores, representantes de inúmeras ONG’s e personalidades ilustres – dentre as quais Oscar Niemeyer – no qual afirmam: “O revanchismo punitivo com relação à década revolucionária de 1970, na Itália, não é democrático e é um retrocesso político”.
DELAÇÃO
Outra questão! Os críticos do governo Lula fazem questão de ‘esquecer’ um detalhe importante relacionado com o instrumento da ‘delação premiada’. Uma pessoa que aceita transformar-se em dedo-duro para se livrar de uma pena é um caso complexo. Regra geral, o delator, com a auto-estima praticamente anulada e com o moral arrasado depois de anos de prisão, é capaz de imputar ao ‘companheiro’ – como fez Pietro Mutti contra Battisti – crimes do arco-da-velha que o mesmo nunca cometera.
O Prof. Dalmo Dallari que estudou minuciosamente o caso, comenta, por exemplo, que “dois desses crimes foram cometidos no mesmo dia, em horários muito próximos e em lugares muito distantes um do outro”. Então, teria ele realmente participado dos crimes?
O que me intriga em toda essa história não é o fato de que a direita – italiana e brasileira – esteja ouriçada. Isto é normal porque é a forma que ela tem de se colocar na ofensiva (na Itália, a ultra-direita berlusconiana, no poder, ‘queimada’ por ter dado apoio à política terrorista-de-estado de Bush; e no Brasil, a elite branca, secundada pelos partidos de direita como o PSDB e o ex-PFL, como forma de desgastar o governo nacional, democrático e popular do presidente Lula).
O problema são os dois pesos e as duas medidas de sempre que alguns intelectuais e cientistas políticos utilizam para sustentar suas posições de apoio à interferência do governo italiano em assuntos de nossa soberania nacional. Senão, vejamos.
Emir Sader lembra uma questão importante: “Os três maiores terroristas de direita italianos estão no exterior, com refúgio. (...) Delfo Zorzi, que responde a processo por atentado que causou oito mortes, está no Japão e recebeu cidadania japonesa. O governo italiano pediu extradição e não deram.
O governo ficou quietinho, não fez nenhum escândalo. Por quê? Porque eles diferenciam os terroristas. Querem criminalizar os de esquerda e absolver os de direita”.
Historiadores e cientistas políticos brasileiros que gostam de fazer média com a mídia, racionalizam quando questionados sobre o fato de, à época de FHC, o ditador paraguaio Alfredo Stroessner, que assassinou e desapareceu com um número considerável de ativistas políticos de esquerda, conseguiu asilo político no Brasil e ninguém criticou o ex-presidente tucano. “Ah – dizem –, o ditador paraguaio não foi julgado no seu país, etc”. Pergunto: e precisava?
A própria França deu abrigo a Battisti por mais de 10 anos à época de François Mitterrand. A Itália não fez nenhum estardalhaço como está fazendo agora contra o Brasil com a ajuda, inclusive, de muitos intelectuais ‘de esquerda’. Ou seja, a Itália encolhe-se diante de países ‘poderosos’ – como a França e o Japão – e quer cantar de galo frente a um do Terceiro Mundo.
Emir Sader diz ainda: “Não está em questão o fato de ele [Battisti] ser ou não inocente. É o direito de asilo”.
EMERSON LEAL Doutor em Física Atômica e Molecular e vice-prefeito de São Carlos
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Dilma condena “política de estado mínimo”:
“Reação à crise só foi possível graças aos bancos públicos”
Em debate realizado nesta segunda-feira (9) pelo Diretório Nacional do PT, em Brasília, a ministra Chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, afirmou que “a crise nasceu nos países desenvolvidos”. “Ela é fruto do cassino econômico e da política de estado mínimo e do mercado máximo”, sublinhou. “Todo o sistema financeiro está rigorosamente falido. Ao mesmo tempo, houve grande queda na produção mundial, de bens e serviços, e queda também violenta na oferta de empregos”.
Dilma destacou a ação do governo Lula para enfrentar a “redução do crédito internacional, a queda no comércio exterior e aumento das expectativas negativas quanto ao futuro”.
“Enfrentamos uma freada brusca, um choque violento. Entre outubro e novembro do ano passado, não entrou sequer um tostão de crédito internacional; tivemos uma queda brutal nas exportações e as expectativas negativas acabaram alimentadas por uma combinação de ganância e medo”, resumiu. Ela acrescentou que esse quadro passou a apresentar sinais de recuperação em janeiro, graças ao fato de o governo ter mudado, nos últimos seis anos, a orientação neoliberal de gestões anteriores.
“O que aconteceria conosco se tivéssemos privatizado os bancos públicos? Não fizemos isso. Ao contrário, ficamos com nossos bancos e começamos a aumentar nossa participação no mercado.
A reação, nos primeiros momentos, só foi possível porque o governo tinha quatro bancos”, comentou, lembrando do importante papel destas instituições no restabelecimento do crédito interno, na redução das taxas de juros e no incentivo ao setor produtivo.
“O governo pôde combater a crise de forma eficiente porque tinha um conjunto de projetos em andamento, uma política de valorização da presença do Estado em parceria estratégica com o setor privado. No passado, quando vinha uma crise, tínhamos arrocho salarial, corte de investimentos e criação de impostos; o país entrava em recessão e quebrava. Hoje é radicalmente diferente. O país não quebrou. Antes, éramos parte do problema; hoje somos parte da solução”, ressaltou a ministra.
O terror econômico da grande imprensa
GILSON CARONI FILHO

O que indica a pesquisa CNT/Sensus, divulgada na terça-feira (3), dando conta de novos recordes na aprovação pessoal do presidente Lula e na avaliação positiva de seu governo? Os números se prestam a múltiplas interpretações, mas se partimos da premissa de que o simples desmascaramento de uma farsa ideológica já é suficiente para desmoronar todo o arcabouço que a sustenta, a imprensa saiu muito mal na foto.
Não só ela como os que ainda acreditam que a consciência política de uma sociedade pode ser reduzida à agenda de sua mídia hegemônica.
Se toda informação como destacava Herbert de Souza “é, de certa forma, uma proposta ou elemento de formulação de propostas e essa é a matéria-prima fundamental para a ação política”, o campo jornalístico vem sendo sacudido por atores ativos e conscientes dos processos de transformação política, econômica e social pelo qual o país vem passando desde 2003.
E, disso, os editores de confiança do patronato não se deram conta. De uma mudança significativa fora das ilhas de edição, fora das águas límpidas dos aquários.
Falácias expostas
A maneira como a crise econômica internacional tem sido noticiada não obedece a qualquer procedimento mais sofisticado. Não há qualquer preocupação em manter a imagem do próprio discurso como “imparcial” e “objetivo”.
O jornalismo de campanha pretende instalar o terror através dos conhecidos padrões de ocultação, inversão e fragmentação.
Manchetes que ignoram a apuração para obter impacto não revelam incompetência, mas disposição de submeter o leitor e/ou telespectador à desinformação, ao fatalismo de profecias que se auto-realizam, à erosão da popularidade de quem governa.
Os dias que precederam a divulgação da pesquisa não deixam qualquer dúvida: vivemos o terrorismo de um enquadramento noticioso feito sob medida para a oposição.
Uma clara subordinação de quem deveria se nortear pelos interesses públicos aos desígnios de um bloco que quer pavimentar seu retorno ao aparato estatal em 2010 e reintroduzir uma agenda falida.
As falácias das editorias de economia foram detalhadamente expostas por Bernardo Kucinski em seu magnífico “Jornalismo Econômico” (Edusp, 2000). Não custa, no entanto, lembrar que a narrativa jornalística tem recorrido a elas como ponto central para sua narrativa.
Arrazoados medonhos
Escolhendo-se pontos convenientes de uma série estatística e procurando desqualificar todas as medidas necessárias tomadas pelo governo, lemos, em manchetes e títulos espalhados por jornais e portais, que “62% das obras do PAC estão atrasadas; 6% foi o recuo registrado nas vendas a prazo em janeiro em comparação ao mês anterior em São Paulo; 5% foi quanto encolheram as vendas à vista em janeiro em relação ao mês anterior; 9,5% foi o aumento da inadimplência no comércio em janeiro”.
Tudo isso jogado, sem qualquer contextualização, não é jornalismo, mas produção deliberada de lapsos de desentendimento. Análises rasteiras, escapistas, que substituem a revelação dos fatores determinantes da crise capitalista é o que fazem diariamente Miriam Leitão, Carlos Alberto Sardenberg e Vinícius Torres Freire, entre tantos outros. Assusta a semelhança estilística e, no caso dos que aparecem em telejornais, a quantidade de recursos cênicos na busca da melhor “noticia ruim do dia”.
Quando o presidente da CNT (Confederação Nacional dos Transportes), Clésio Andrade diz que “concluímos que há forte esperança centrada no discurso do presidente e nas medidas que o governo vem tomando. O discurso do presidente é muito forte, ele cria esperança, divide o ônus, o que é muito importante numa crise econômica”, uma estranha sensação de vertigem toma conta dos nossos condestáveis sacerdotes da opinião publicada.
Há algo de errado no cardápio diverso de uma realidade que insiste em negar seus arrazoados medonhos. Melhor tentar nova forma de enquadramento. Desistir, jamais.
PS: Concordo com quem diz que ruim com a grande imprensa, pior sem ela. Mas o quadro é tão calamitoso, a perda de credibilidade e receita tão agudos, que ouso sugerir maior agressividade aos departamentos de marketing. Seria interessante assistir a uma peça publicitária em que a Folha de S.Paulo tentasse atrair novos assinantes dizendo:
“Seja nosso leitor. Não pelo que temos. Mas pelo que não temos. Venha para o nosso jornal e não leia Merval Pereira, Ali Kamel e Miriam Leitão”. A réplica de O Globo, imagino, seria bastante criativa. E ambos teriam razão.
Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador da Hora do Povo e do Observatório da Imprensa

"Graças a Stalin se generalizou a consciência de que o povo existe e deve ter o que comer e onde morar, todos são gente. Sem ele, permaneceríamos na barbárie social do século XIX. "

Poeta e critico Paulo Hecker Filho deixou Sartre comendo poeira



A lição de Stalin já mudou o mundo para melhor”


A obra poética de Paulo Hecker Filho já foi abordada aqui pelo também poeta gaúcho Sidnei Schneider. No artigo de hoje, Sidnei nos apresenta o “pensamento independente e livre das pressões midiáticas” de Hecker sobre o líder da construção do socialismo na URSS. Segundo ele, “sem Stalin, permaneceríamos na barbárie social do século XIX”

SIDNEI SCHNEIDER

O poeta, crítico e dramaturgo gaúcho Paulo Hecker Filho (1926-2005), autor de dezenas de livros e colaborador dos jornais Estado de São Paulo, Zero Hora, Correio do Povo, nasceu para o mundo intelectual no pós-guerra, e como era comum à época, interessou-se pelo existencialismo, particularmente o de Jean Paul Sartre.


Percebeu, porém, com o decorrer do tempo, que faltava algo de compromisso com o ser social nessa corrente, e festejou a posterior aproximação do filósofo francês das lutas populares, da independência das nações e do socialismo soviético.


Como é sabido, Sartre deu para trás, pressionado pela guerra ideológica promovida pelos asseclas do imperialismo, e renegou o que vinha defendendo, inclusive a liderança de José Stalin por ele festejada.


Hecker, dono de um pensamento independente e livre das pressões midiáticas e editoriais, após muito estudo e determinação, continuou a defesa de Stalin e do socialismo, especialmente durante e depois da debacle da URSS, quando o imperialismo voraz e sua mídia se apoiavam em Francis Fukuiama para sustentar o fim da história e de qualquer esperança de um mundo mais justo.

Hecker não se impressionava fácil. Se, diante da ameaça atômica norte-americana, Kruschov não sustentou a luta e, para corroer a sociedade soviética por dentro com uma ideologia que não lhe correspondia, julgou por bem fazer coro com a direita mais sovina e difamar o seu antecessor, iniciando a destruição do socialismo – Hecker, por sua vez, via a figura decisiva de Stalin para o progresso humano.


Quando os seguidores e sucessores de Kruschov, após 40 anos de ignomínias e crescentes aceitações da ideologia, da política e da economia do inimigo, conseguiram por fim abalar a fortaleza social erigida sob a liderança de Lenin e Stalin - o nosso poeta não titubeou, percebendo que a sociedade humana atual continuava impregnada das suas conquistas e iria ainda mais longe.


Para um pensador não apoiado na discussão e no estudo constante de um coletivo organizado e partidário, convenhamos, a convicção que alcançou é surpreendente, parece quase impossível. É claro que sempre houve uma luta ideológica em torno disso, e o fato dela ter sido sustentada aqui no Brasil por certo iluminou as ideias que balançavam no trapézio do cérebro desse guerreiro. Na vida e na história, os seres humanos sempre a nos surpreender com suas capacidades.

Para começar, reproduzamos trechos do texto Graças a Stalin, de 12.11.1990 (portanto, com a URSS sob o governo fedífrago de Gorbachov), que Hecker distribuía, como se verifica em uma carta ao amigo Darcy Ribeiro, entre a intelectualidade:
“Num dos seus agradáveis papos públicos, (o escritor) Moacyr Scliar teve humor: ‘Está aí por que os russos nunca dominarão o mundo: se para fazer um simples chá, usam algo tão complicado como um samovar!...’

“Rimos, mas o fato é que já dominaram. E felizmente. Lenin e seu alter ego Stalin transformaram a nossa atitude básica, a relativa aos outros, que são o que mais importa a cada um. E não só diretamente no mundo socialista, em termos de população já regulando com a do capitalista, como nesse. As conquistas igualitárias que deram novo rosto ao século – direitos do trabalho, anticolonialismo, antirracismo, enfim quase tudo o que há de concreto sob a palavra democracia, que se tornou um dogma da época só recusado por extravagantes, vem da revolução russa, vem de Stalin, já que ele, mais que ninguém, foi quem preservou e desenvolveu a Rússia, tornando-a a potência que venceu quase sozinha a Alemanha nazista e freou a expansão do império americano, com sua inumana produção pela produção. (Hoje nem isso, acrescentaríamos).

“Graças a Stalin se generalizou a consciência de que o povo existe e deve ter o que comer e onde morar, todos são gente. Sem ele, permaneceríamos na barbárie social do século XIX.
“Se nela ainda em parte estamos, ao menos podemos vê-la, o que é o começo de afastá-la, já sem as ideologias cataratas (...). A política agora leva o povo em conta; mesmo insinceramente, tem de levar ou não anda. Oferece trabalho e desprendimento pela maioria e não raro cumpre. Os aproveitadores e seus súditos, sempre mais realistas que o rei, tentam desmoralizar as boas intenções, ganhando tempo para ir tirando suas vantagens; consistentes ou irrisórias importa menos, pois, ainda que com ironia, arcam com o que é hoje o grande, senão o único pecado, não ser solidário.

“Recorde-se que para tomar e manter o poder, Lenin organizou o partido como uma milícia. Preocupava-se menos com novas adesões do que conservar a unidade disciplinada, pronta a agir como um homem, em suma, um Lenin multiplicado. A mesma tática preside a longa administração de Stalin e, dadas as pressões externas e internas, não se concebe outra que pudesse ter sido tão vitoriosa. A nação foi vista como uma família e assim tratada. Não satisfeito em administrar com sensatez e quase ubiquidade, dirigir, aliás, brilhantemente, a guerra e os acordos posteriores, Stalin passou a vida a escrever, a lecionar com clara didática a nova ordem aos russos e ao mundo. Aos poucos, construiu uma grande nação, na cidade e no campo, acabou com o subemprego, a submoradia, o ócio que levava ao vício e à violência, o frio, a fome. (...)

“Despontam frívolos coveiros para o comunismo e ele felizmente já está vivendo dentro da maioria. Vejam o caso atual brasileiro. Nada menos comunista em palavra e ideia mas, por não esquecer a nação, tomam-se medidas que os eternos parasitas apodam de comunistas. Que sejam. Praticamente todos somos um pouco comunistas. Aprendemos com Stalin.

“O ideal seria que a organização democrática se fizesse sem fraturas, pela consciência de sua necessidade; Marx sonhou com o fim do Estado. Possível ou não, até lá devagar com o andor. A lição de Stalin, de que o bem geral vem antes dos bens particulares, não terminou de ter vez e haverá recalcitrantes, nostálgicos do passado e da barbárie. Mas a verdade é que já mudou o mundo, para melhor.”

Num pequeno trecho desse texto, Hecker avalia que o debate estaria “ampliado até a Perestroika”, sem ainda desvendar o seu conteúdo. Logo a seguir, porém, em 1991, quando Yeltsin assume e a mídia dócil pretende comemorar o fim do socialismo, ele escreve Olhe a armadilha, se ainda não caiu nela: “Quando as metas se congelam, é que diminuiu nosso diálogo com a vida. O sadio é mudarem por acréscimo, e tanto para nós individualmente, como para a família, o grupo, a cidade, o mundo. Apesar da insistência da mídia, o comunismo não acabou. Nem mesmo a democracia (...). Pode-se dizer que a Revolução Francesa não terminou, voltará a ocorrer noutras circunstâncias, nem a russa, a cubana, a chinesa, e que sempre ouviremos ecos do Grito do Ipiranga. Nem se encerra a obra e a sucessão dos grandes libertadores”. E aqui Hecker cita Descartes, Hume, Voltaire, Kant, Hegel, Marx, Freud, Lenin, Stalin, Mao, Fidel, entre outros.


E denuncia o imperialismo: “Quatro quintos do mundo a se matarem para que um centésimo se encha de tanto dinheiro que não pode perder um minuto sem tratar de aumentá-lo, sob pena de perder dinheiro, o maior pecado na ética capitalista. (...) O socialismo, capitaneado por Stalin, transformou-a (a antiga Rússia) em vinte anos na segunda potência do mundo. (...) Olhe um pobre, olhe dois, olhe mil, e me diga se existe algo mais urgente do que oferecer uma possibilidade de vida aos que não têm nada. E isso só o socialismo mostrou que pode. (...) Agora a mídia a cloroformiza (a consciência política) com descaro.


Vamos de pós-moderno, querem uns, o que acaba se reduzindo a pós-humano (...). Seguindo a ladainha diária da mídia, não é só o socialismo, parece até que o mundo acabou, a cultura ocidental, e não nos resta mais a fazer do que comprar o que ela anuncia e calar a boca”. Diz que não se acreditaria que a agiotagem internacional “tentasse de novo escravizar o mundo” e que “se a oposição vacila, escravizam mesmo: têm força e, diante dela, só outra maior”.

A 07.09.1992, escreve O simpósio (banquete em grego), sobre um debate acontecido em Porto Alegre, que contou com José Saramago, o citado Francis Fukuiama, e vários outros, entre os quais o psicanalista francês Cornelius Castoriadis, com o qual Hecker concorda só para melhor contestá-lo: “Que Lenin é que tem a idéia do partido pensando como uma cabeça, a de Lenin naturalmente, e é ele que institui a política realista de que Stalin é tão acusado, de modo que a Revolução Russa não tinha outro caminho a seguir senão o que seguiu. De acordo. Só que ele odeia Lenin e Stalin e eu os admiro, sem conceber que se possa separá-los. A Revolução de que são os principais autores, no mínimo despertou e manteve desperta a consciência social do mundo inteiro e é ainda no rastro de suas promessas que o melhor do século existe no plano coletivo.”


A seguir, defende a civilização contra certo insulamento nuclear defendido pelo outro. Esse lúcido e corajoso bate-pronto de Paulo Hecker, ao inicialmente citar Castoriadis, talvez exija alguns esclarecimentos ao leitor. A relação do líder com o coletivo partidário, e por extensão com o povo, é uma relação que se realimenta mutuamente, ampliando-se em força e sabedoria.


Assim, o partido bolchevique, com sua unidade na ação destacada por Hecker, pronto a agir como um só homem, pensa mais e melhor do que se apenas contasse com uma cabeça, ainda que essa fosse “a de Lenin, naturalmente”, e para tal realiza os conhecidos debates e reuniões, nas quais o líder e cada um exercem suas prerrogativas. É óbvio que a administração de Stalin, quando a atuação e o discernimento do líder foram exigidos num grau nunca visto, também se apoiou dessa forma no partido e no povo, e só assim pôde vencer os obstáculos e liquidar o horror nazi-fascista que ameaçava a humanidade. O julgamento e a condenação, antes da Segunda Guerra, dos traidores, sabotadores e assassinos mancomunados com o nazismo garantiu essa vitória.


Não surpreende que os escribas do império e a mídia vende-pátria seguidamente queiram ver neles o verdadeiro partido e um abafamento da discussão partidária. Revelam, apenas, ter algo em comum com tais traficâncias.

Quanto a Fukuiama, que considera, nas palavras de Hecker, que “já se chegou ao melhor modo de viver, que a história terminou na sociedade norte-americana”, embora não desconheça “os setores de miséria dessa sociedade, inclusive os aponta mas considerando-os superáveis ou perdoáveis” - o poeta é claro: “Eu diria que são assustadores, especialmente no Terceiro Mundo, na dependência da economia americana.” E denuncia, ainda, que “o dinheiro em excesso, e é o que o dinheiro quer, sempre mais, desumaniza os que o possuem e suprime os que não o possuem.” Comenta, também, um livro do alemão Robert Kurtz que “analisa a derrocada dos regimes do Leste e da URSS como mais uma crise do capital que do socialismo”.

Vejamos uma resenha de 28.12.1994, intitulada Um livro, um homem, para as memórias do romancista Ivan Pedro de Martins, integrante da Aliança Nacional Libertadora dos anos 30, de nome A flecha e o alvo. Hecker o trata com o carinho da amizade, sem, no entanto, concordar com o que lhe parece mero antistalinismo aurido nos anos de moradia do autor no adverso contexto de Londres. Defende a necessidade das ações firmes de Stalin contra a quinta-coluna, na defesa da sua pátria e da humanidade, estando “o país sob constante ameaça e por fim sendo invadido”: “Mas com Stalin dirigindo a paz e a guerra, (a URSS) soube vencer quando ninguém conseguia. De qualquer forma, ele morreu há mais de quarenta anos, em 53, e já em 56 houve a denúncia contra os seus arrochos, saiu do primeiro plano. Se a URSS chegou ao ponto de desastre, é evidente que a culpa é dos que vieram depois. Basta ler a biografia de um antistalinista como Deutscher, para ver que não se tratava de caprichos tirânicos, mas a ação de um estadista que não brincava em serviço, não podia brincar, não o deixavam”.

Numa entrevista a Luciano Dutra, a 30.07.1992, intitulada e subintitulada Para ser poeta ou prosador, você tem de gastar a vida nisso, e sem garantias, a primeira pergunta é: “O senhor é mesmo stalinista ou isso também faz parte da sua poética?” Hecker responde: “Tudo em mim faz parte da minha poética ou é desvio. Mas não sou ista nada”, revelando que tem “compromisso com a verdade. O que é a verdade? Aquilo de que se tem na hora a certeza possível.

“Admiro Stalin. É difícil, quando se busca conhecer, não admirar obra tão portentosa, guiada pelo bem dos homens. Se teve aspectos duros, podia não ter tido nas circunstâncias de guerra quase permanente em que se processou? De início, como revolucionário clandestino e perseguido; logo, saindo da primeira Grande Guerra, como revolucionário vitorioso; depois, como chefe, a enfrentar a guerra civil, com adversários socorridos pelas grandes nações, e a arrostar com a revolta sobretudo pela coletivização dos campos; a seguir, o clima de pré-guerra da Segunda Mundial, e essa, em que é o grande vitorioso como organizador da sociedade civil e da resistência bélica; após a guerra, como diplomata de todas as conquistas, enfrentando depois os riscos da guerra fria. E todo o tempo lendo e escrevendo com a modéstia deliberada de explicar as coisas para todos, que inclusive esperavam e acatavam a sua palavra. Já é uma vida.

"Morreu há quarenta anos. Não admira que continue sendo um ponto de referência, mas (...) naturalmente não é o responsável pelo que se passa na URSS, agora CEI. Essa confusão é há muito alimentada pelos inimigos da Revolução de Outubro, que têm justamente o maior poder da terra, o capital. No entanto a revolução continua a grande promessa do século de redenção terrena e foram Lenin e Stalin que a fizeram antes de quaisquer outros.”

Há mais, e alguma coisa já publicamos quando da morte do autor, inclusive aqui. Ao leitor que não conhece Paulo Hecker Filho, pode lhe passar que seja um historiador ou quadro partidário, mas Hecker, na sua singularidade, passou a maior parte da vida escrevendo poesias e fazendo crítica literária, e como tal é reconhecido. De minha parte, como poeta, eu talvez preferisse falar da sua poesia - o que, aliás, já fiz outras vezes. Provavelmente, ele também preferisse o assunto. Mas há coisas na face da terra e na história humana que não podem ser caladas.


Os milhares de arquivos, anotações e cartas do poeta estão no seu acervo literário, sob a responsabilidade da PUC-RS. Informações e textos aqui reproduzidos, no livro de sua autoria Saudades de Voltaire, Porto Alegre, Editora Sulina, 1998, agora distribuído, os exemplares restantes, pela Editora Alcance. Os 40 mil livros que possuía, segundo sua vontade, foram herdados por um amigo escritor. A sabedoria investigativa e a poesia da sua obra podem orgulhar, e muito, os seus familiares e amigos.
Parece até, como se pode deduzir, que na hora de sua maior lucidez, Sartre deu sua contribuiçãozinha, afinal. É sabido, também, que Stalin escreveu e publicou poemas quando jovem, e continuou a ler poesia durante toda a vida, tornando-se inclusive especialista em certos autores. Paulo Hecker, sem dúvida, escrevia de poeta para poeta.

domingo, 8 de fevereiro de 2009



Consolida-se e cresce a amizadee colaboração entre Cuba e Angola•



Afirmaram Raúl e Dos Santos no segundo dia da visita oficial do presidente cubano a Angola


Jorge Martín Blandino / Fotos de Raúl Abreu Enviados especiais
LUANDA


As boas-vindas e as conversações oficiais entre o presidente dos Conselhos de Estado e de Ministros, general-de-exército Raul Castro Ruz, e o de Angola, José Eduardo dos Santos, assim como as demais atividades desta intensa e frutífera jornada, ultrapassaram os limites do protocolo e constituíram um fraterno, sincero e frutífero intercâmbio, conforme a irmandade existente entre ambos os povos.

A cerimônia oficial de boas-vindas começou com os hinos nacionais de Cuba e de Angola, interpretados por uma banda militar, e a revista da Guarda de Honra, colocada em frente do Palácio Presidencial.

A seguir, os presidentes cumprimentaram os funcionários do governo angolano, representado pela maioria dos membros do Conselho de Ministros, assim como os integrantes da delegação cubana. Depois, teve lugar o encontro entre as duas delegações, na qual falaram Raúl e Dos Santos.

Os dois dignitários destacaram o papel relevante do líder da Revolução Cubana na capacidade de resistência de nosso povo, fundamento de suas vitórias face a todas as agressões, e na vocação internacionalista de Cuba. Além do mais, salientaram o simbolismo de que a visita coincidisse com o 48º aniversário do início da luta armada em Angola, em 4 de fevereiro de 1961.
Raúl assinalou que nesse mesmo ano, dois meses e meio depois, aconteceu a vitória na Baía dos Porcos e que a irmandade histórica entre Cuba e Angola é indestrutível, pois foi forjada na luta comum contra o colonialismo e o apartheid, sob o guia de dois homens excepcionais: Agostinho Neto e Fidel Castro.

Da mesma maneira, ressaltou que era grato constatar a realidade de paz e o compromisso do MPLA, do governo e do povo angolanos com a construção econômica e a consolidação da unidade nacional, assim como o papel decisivo do presidente Eduardo dos Santos no esforço para conseguir objetivo tão prioritário.

Ratificou a disposição cubana para contribuir modestamente para a reconstrução econômica com a cooperação de especialistas e trabalhadores internacionalistas.

O presidente de Angola, de sua parte, afirmou que a ação solidária de Cuba foi determinante para a independência. Lembrou que, quando o seu povo foi abandonado pela potência administradora, a Ilha enviou seu melhor pessoal para prestar ajuda.

Cumprimentou nosso povo pelo 50º aniversário da Revolução Cubana, por ser vencedor em cada agressão sofrida e por merecer o respeito de todos. Condenou o bloqueio dos Estados Unidos e ratificou que os cubanos sempre poderão contar com a amizade e a modesta solidariedade de Angola, assim como a decisão, ainda em meio à atual crise econômica interncional, de incrementar a colaboração, para o qual contribui a complementaridade das duas economias.

Sublinhou que Cuba e Angola são exemplo de independência, coesão nas decisões políticas e de atuação independente e soberana.

Mais tarde, os dois presidentes tiveram um encontro privado de trabalho, onde examinaram os programas de colaboração em curso e os que vão ser implementados, o qual decorreu, segundo afirmou o presidente Dos Santos, de maneira franca e aberta, consoantemente com a sólida amizade forjada.

Em paralelo, os membros das duas delegações reveram separadamente os diversos temas da agenda da visita e informaram dos resultados aos dois dignitários.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

"A contradição do mundo de hoje é esta: de um lado, a Humanidade e, de outro, a moribunda oligarquia bélico-financeira especulativa que parasita o mundo; em suma, entre a vida e a morte"

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

ESTE ARTIGO ESCRITO EM 1998

A agonia da especulação global (II)


Dando continuidade ao artigo publicado na edição anterior, o economista Nilson Araújo de Souza, presidente do , demonstra que "a recessão se generalizará a partir dos EUA, cuja economia é, na verdade, o epicentro da crise", "pois além de terem os maiores déficits externos e a maior dívida externa do mundo, para completar, converteram-se de maiores investidores estrangeiros do mundo em maiores recebedores de investimentos estrangeiros". "O tombo da economia norte-americana levará, inevitavelmente, à bancarrota da economia mundial. Se chegarem a aumentar suas taxas de juros, como decorrência de uma provável retirada de capitais japoneses, os EUA enxugarão capitais do mundo inteiro, além de forçar os demais países a também aumentar seus juros, a fim de não perder capitais. O resultado será a redução da produção em todo o mundo", adverte Nilson. Segundo o economista, "o fortalecimento dos Estados nacionais é um instrumento decisivo para a construção da nova etapa do desenvolvimento", que "só não interessa aos parasitas que dominam o capital financeiro especulativo dos países centrais, que querem dominar o mundo a partir de seus próprios Estados nacionais
"Nilson Araújo de Souza"
A brutal desvalorização desses ativos financeiros, que pode ocorrer a qualquer momento, será a vingança da economia real. Mas será uma vitória de Pirro. Incapaz de seguir sustentando o parasitismo ciclópico característico da especulação global, isto é, incapaz de seguir fornecendo os recursos que alimentam essa especulação, os limites, cada vez mais estreitos, da economia real forçarão uma gigantesca desvalorização dos ativos financeiros, mas essa pulverização da riqueza acabará por devastar mais ainda a economia real, como ocorreu em 1929.
A pulverização da riqueza financeira, que já deu seus primeiros passos (só em julho e agosto de 1998, segundo a revista The Economist, o valor das ações, no mundo todo, já havia caído o correspondente a US$ 4 trilhões, cinco vezes o PIB brasileiro), destruirá da noite para o dia riquezas incomensuráveis que foram acumuladas nesses anos de parasitismo especulativo, mas, ao devastar a economia real e, portanto, o emprego, prejudicará, sobretudo, às massas trabalhadoras. Essas, ademais, terão enormes prejuízos porque, com a privatização dos sistemas previdenciários, foram lançadas nos braços de fundos privados de pensão, que também entraram na ciranda financeira (detêm US$ 6,5 trilhões dos recursos envolvidos na especulação internacional) e serão engolfados pelo furacão que varrerá a especulação.
Os problemas sociais, que já são graves, em face do desemprego e do corte dos direitos sociais, ficarão ainda mais dramáticos. Aliás, repetindo o que ocorreu em 1929, um outro sintoma de que uma violenta e nova recessão já bate às portas da economia norte-americana é a explosão de fusões - a maior da história - que ocorre atualmente no país: em 1997, os negócios de fusão montaram em US$ 957 bilhões, equivalentes a 12% do PIB e a todas as fusões realizadas de 1980 a 1990; os negócios em 1991 haviam sido de US$ 138 bilhões, apenas 2% do PIB. Com base nos quatro primeiros meses de 1998, estima-se que chegarão a 20% do PIB no ano. Neste século, as grandes crises nos EUA têm sido sempre precedidas por uma onda de fusões industriais, comerciais e bancárias.
A onda do começo do século deu origem ao crash de 1904; a da década de vinte resultou na grande depressão de 1929; no bojo da onda dos anos sessenta, nasceu a recessão da década de setenta; a da segunda metade dos oitenta originou a recessão deflagrada em 1990.Não é difícil perceber porque o recrudescimento das fusões antecedem as crises.
As fusões são a forma como se manifesta a centralização dos capitais, isto é, a redistribuição dos capitais existentes entre os capitais maiores. Não significam, portanto, acumulação de capital, crescimento da massa de capitais. É diferente da concentração, em que os capitais crescem pela acumulação do excedente econômico, ou seja, pela conversão de lucro em novo capital.
Ora, a briga dos grandes grupos econômicos para abocanhar os demais se intensifica precisamente quando o mercado total pára de crescer, deflagrando a luta por um mercado cada vez mais estreito. E isso ocorre precisamente na mudança do auge da economia para a crise.
A situação é mais grave nestes tempos de decadência do imperialismo, em que o capital financeiro dos países centrais só conseguia crescer à custa do arrocho salarial de seus próprios trabalhadores e da devastação da capacidade produtiva e, por decorrência, do mercado dos países da periferia. A economia norte-americana está no fio da navalha. Qualquer mudança de sinal da política monetária, comandada pelo Federal Reserve, pode precipitar uma crise sem precedentes. O desastre de 1929 foi precedido pela decisão do Fed de subir, a partir de meados de 1928, a taxa de desconto e, em consequência, as taxas de juros, o que provocou o estouro da bolha especulativa em outubro de 1929.
A cautela atual do Fed, que, em outras circunstâncias, já teria elevado os juros, revela claramente seu temor em provocar uma grave recessão no país. Mas a situação é tão delicada que, mesmo sem adotar qualquer medida, meras advertências de seu presidente têm provocado fortes abalos nas bolsas, como ocorreu a partir do final de julho de 1998.Não é por mera coincidência que o clima de euforia que vinha predominando na mídia (a matéria da The Economist foi uma exceção) reproduzia o mesmo clima que precedeu a quebra da bolsa de Nova York em 1929. Em junho daquele ano, escreveu a revista Forbes: "Nos últimos cinco anos temos estado numa nova era industrial neste país.
Estamos progredindo industrial e economicamente não só muito rapidamente, mas numa escala perfeitamente heróica".Para agravar a situação da economia norte-americana, vem ocorrendo no período recente um enorme processo de valorização do dólar em relação às principais moedas do mundo, particularmente em relação às moedas européias e asiáticas.
A valorização perante o iene, nos últimos três anos, chegou a ser de 82,5%, passando de 80 ienes por dólar no primeiro semestre de 1995 para 146 em junho de 1998. Em relação a várias moedas da Ásia, à exceção da chinesa, o dólar teve esse nível de valorização em menos de um ano, a partir de agosto de 1997. Esse processo não decorreu de uma decisão unilateral do governo norte-americano. No caso da Europa, seus governos decidiram conscientemente desvalorizar suas moedas, como forma de melhorar suas contas externas e favorecer a unificação.
A Ásia, por sua vez, teve de realizar uma desvalorização desordenada, no bojo da crise financeira e cambial que a vem atormentando. O barateamento dos produtos importados pelos EUA e o encarecimento dos produtos exportados, decorrentes da valorização do dólar, tendem a aumentar, ainda mais, o deficit comercial desse país, estimando-se que pode superar os US$ 300 bilhões por ano. E, com isso, aumenta a necessidade de financiamento externo do país, justamente num momento em que as fontes estão secando.Vê-se que os EUA viraram um império sui-generis: maiores déficits externos e maior dívida externa do mundo e, para completar o quadro, converteram-se de maiores investidores estrangeiros do mundo em maiores recebedores de investimentos estrangeiros. Em 1996, havia no país um estoque líquido de investimentos estrangeiros diretos (descontados os investimentos que tinham no exterior) de US$ 870,5 bilhões (ONU - CEPAL, Economic Survey of the United States in 1996, Washington). Isso significa que, além da obrigação de remeter juros para o pagamento de uma gigantesca dívida externa, os EUA passaram a ter que remeter também lucros e dividendos para as matrizes das empresas estrangeiras instaladas no país. Em face do enorme peso das transnacionais norte-americanas no resto do mundo e das maiores taxas de lucros que elas obtêm, comparadas com as que as de outros países recebem na economia norte-americana, esse balanço ainda é positivo (a conta que reúne o pagamento de juros, lucros e dividendos ainda tinha um saldo positivo de míseros US$ 3 bilhões em 1996), mas a tendência é se tornar rapidamente negativo, em face do vertiginoso crescimento da dívida, que resultará dos gigantescos déficits comerciais.
Ironia do destino! Um país imperialista passando a viver o mesmo drama que tem caracterizado os países dependentes: vulnerabilidade e sangria externas. Não há melhor sinal do que esse para o fato de que o imperialismo norte-americano atingiu sua fase terminal, como ocorreu no final da Antiguidade com o Império Romano e, no final da Idade Média, com o poderoso Império dos Habsburgos, que chegou a dominar quase toda a Europa, as Américas e partes da Ásia e da África. E a realidade mais uma vez se encarrega de enterrar as ilusões daqueles que, baseados em circunstâncias do momento (o curto crescimento do período Reagan, o baixo crescimento do período Clinton ou a derrocada da URSS e do Japão), passaram a propugnar que os EUA estavam fadados a liderar uma nova ordem mundial, já que haviam retomado a iniciativa. Bem que tentaram, mas as contradições dessa fase parasitária e apodrecida do imperialismo são mais fortes do que a vontade dos chefes e apaniguados do império.
O tombo da economia norte-americana levará, inevitavelmente, à bancarrota da economia mundial. Se chegarem a aumentar suas taxas de juros, como decorrência de uma provável retirada dos capitais japoneses, os EUA enxugarão capitais do mundo inteiro, além de forçar os demais países a também aumentar seus juros, a fim de não perder capitais. O resultado será a redução da produção em todo o mundo. Esse aumento dos juros, ademais, deteriorará mais ainda a situação dos países endividados, não apenas porque vai piorar suas contas externas, sobrecarregadas de juros, mas também porque, como todos eles, em face das políticas neoliberais, se encontram com enormes déficits externos, dependendo, por isso, de capitais especulativos externos para financiar esses déficits, serão levados à insolvência se esses capitais fugirem para os EUA.
Por outro lado, com a deflagração de uma recessão no principal mercado do mundo, o norte-americano, tornar-se-á ainda mais difícil a situação dos demais países, que passaram a depender, em grande medida, desse mercado. Mesmo sem que o Fed haja elevado os juros, a recessão já começou a se insinuar nos EUA, como consequência da queda das taxas de lucro das empresas, da queda das exportações resultante da recessão já deflagrada em outras partes do mundo e da queda das rendas que decorre da pulverização das riquezas empenhadas nas bolsas. Uma provável retirada dos capitais japoneses agravaria muito mais esse quadro já difícil. Sintomaticamente, foi essa a avaliação que fez o secretário-geral da ONU, Kofi Annan, durante conferência internacional sobre a crise na Ásia realizada em Bancoc, na Tailândia, em junho de 1998: "A recessão econômica da Ásia está prestes a se estender por todo o mundo (...) Não se pode dizer ainda qual será o impacto". Tem esse mesmo significado o discurso proferido no Congresso dos EUA, em fins de julho de 1998, pelo presidente do Fed, Alan Greenspan.
Eles só ainda não perceberam foi que, independentemente do agravamento da crise asiática, a recessão se generalizará a partir dos EUA, cuja economia é, na verdade, o epicentro da crise. É curioso como, ao mesmo tempo em que, no começo de 1998, a economia norte-americana parecia ter chegado ao seu momento de "auge", também começaram a aparecer os primeiros indícios de recessão. A queda da taxa de lucro, o aumento dos estoques invendáveis e a queda das exportações não são mais que a preparação para o tombo. Os sinais são bastante visíveis: a taxa de desemprego voltou a aumentar, de 4,3% para 4,5% da força de trabalho, de abril para maio deste ano; o Index of Leading Economy, do Conference Board, permaneceu inalterado em 105,2 de abril para maio; os investimentos do setor de construções, que vinham puxando o crescimento da economia, caíram 1,5% em maio; o índice nacional de atividade da produção, medido pela National Association Purchasing Management, caiu pela primeira vez em dois anos, de 51,4 em maio para 49,6 em junho (um índice inferior a 50 é considerado um sinal de contração da economia). Assim foi que, depois da "explosão" de 5,4% no primeiro trimestre de 1998, o PIB dos EUA só cresceu míseros 1,4% no segundo trimestre.
Mas a situação seguiu piorando: a produção industrial, depois de cair 1,1% em junho, voltou a cair 0,6% em julho, levando a capacidade ociosa para cerca de 20% da capacidade instalada, maior nível depois da recessão do começo da década. Ainda não chegamos aos momentos mais dramáticos da crise, mas as dificuldades da economia mundial já são tão grandes que conseguiram imobilizar o principal instrumento que, tradicionalmente, o império norte-americano tem utilizado para impor seu receituário para o resto do mundo, particularmente para os países subdesenvolvidos: o famigerado FMI. Depois de aportar mais de US$ 100 bilhões no "socorro" das nações da Ásia que naufragaram, ao mesmo tempo em que lhes exigia condições impossíveis de cumprir, como ocorreu na Indonésia, o FMI não conta hoje com mais de US$ 15 bilhões para emprestar.
Não é por acaso que, apesar da grave situação financeira da Rússia, ele resistiu até o limite a emprestar-lhe alguns trocados, mesmo sabendo das inevitáveis consequências internacionais de uma explosão financeira naquele país. Para fechar o pacote, além de raspar o próprio tacho, dependeu do aporte dos bancos centrais de vários países.A sobrevivência do FMI passou a depender da implementação do mecanismo especial conhecido como Acordos Gerais de Empréstimo, integrado por 22 países, dentre eles os Estados Unidos, que prevêem o aporte de recursos da ordem de US$ 50 bilhões, em casos considerados extraordinários.
A crise mundial é tão grave que, ironicamente, esse organismo internacional, que costuma "socorrer" os países em dificuldades (isto é, emprestar-lhes algum dinheiro em troca de concessões ao capital financeiro internacional, particularmente o dos EUA), agora está de pires na mão. E sem qualquer garantia de que será socorrido. É que há uma enorme resistência, sobretudo do Congresso norte-americano, em aportar-lhe novos recursos, devido ao rotundo fracasso de suas interpretações e conseqüentes terapias para as nações asiáticas. Pouco antes da explosão de 1997, as análises do FMI pintavam a região de cor-de-rosa e elegiam suas economias como modelo a ser copiado.
Depois da emergência da crise, impôs à Indonésia um receituário que quase levou o país à guerra civil. Situação semelhante ocorreu em relação à Rússia. E, assim, foi para o espaço a credibilidade que o Fundo desfrutava junto aos especuladores internacionais, que, em grande medida, se baseavam em suas análises e terapias para eleger seus campos de aplicação. É sintomática a declaração do presidente do Comitê Econômico Conjunto do Congresso dos EUA, deputado Jim Saxton: "O programa do FMI fracassou completamente para estabilizar os mercados financeiros russos e sua situação política". No que é secundado por David Hale, economista-chefe de uma dessas arapucas de agiotagem, o grupo norte-americano Zurich Insurance: "Há crescentes sinais de que está se rompendo o apoio para políticas ortodoxas orientadas pelo mercado nas perturbadas economias da Ásia".
É essa também a opinião do jornal "Financial Times", ao dizer que "o presente sistema, baseado no FMI e no G-7, falhou na prevenção de crises e também está fazendo um trabalho muito pobre para resolvê-las". O que esses porta-vozes dos especuladores não perceberam foi que a tão decantada quanto ilusória competência dos técnicos do FMI naufragou diante de uma devastadora crise que não se enquadra, nem de longe, em seus surrados manuais. Não que as crises menos dramáticas possam se enquadrar nesse receituário, mas, nesses casos, os credores internacionais pelo menos têm alguma garantia de que receberão de volta alguma coisa do que aplicaram.Sem fundos e com um receituário desgastado, não é de estranhar que, em reunião no começo de setembro com ministros da Fazenda da América Latina e dos EUA, os dirigentes do FMI tenham se limitado a elogiar o trabalho desses ministros e a recomendar que prossigam nesse mesmo caminho. Não nos esqueçamos que, pouco antes de explodir a situação na Ásia, o FMI havia se desmanchado em elogios aos chamados "tigres asiáticos", com destaque para a Indonésia. A essa altura dos acontecimentos, quando já se foi longe demais no caminho da especulação global, é praticamente impossível evitar uma catástrofe global.
A oligarquia financeira dos países centrais, preocupada apenas com o ganho rápido, elevado, fácil e aparentemente seguro, e totalmente despreocupada com as novas gerações, isto é, com o futuro da Humanidade, já comprometeu demasiadamente nosso futuro. Até um dos principais porta-vozes do mundo financeiro, a revista britânica The Economist, já admite que caminhamos para uma depressão global: "Pela primeira vez desde o início dos anos 80, uma depressão global é um desenlace imaginável, até mesmo plausível". Talvez tenha sido por isso que o diretor-geral da Unctad (órgão das Nações Unidas para comércio e desenvolvimento), o brasileiro Ruben Ricúpero, em reunião internacional com sindicalistas, patrocinada pela OIT, por ocasião da comemoração dos 50 anos do GATT, tenha começado sua intervenção pela leitura do "Manifesto Comunista", que completava 150 anos, sendo que, ao final da leitura, declarou: "o Manifesto é uma descrição muito atual do mundo contemporâneo".
Elementar, meu caro Watson. Ricúpero foi secundado pelo principal jornal do mundo financeiro, o ultraconservador "Financial Times". Em um artigo chamado O Capital revisitado, afirma: "Claramente lições devem ser aprendidas". Com O Capital, claro.Os povos do mundo não permitirão que a devastação a ser provocada pela depressão global se converta em barbárie, e abrirão um novo caminho de construção de seu futuro. Os movimentos que já estão ocorrendo em todos os quadrantes do planeta revelam, não apenas uma profunda e crescente indignação em relação aos rumos - ou melhor, à falta de rumos - que vêm sendo impostos ao mundo, mas também uma tentativa de trilhar um novo caminho.
Mesmo entre os que haviam aderido a esses tempos obscuros que elegeram um mercado inexistente, isto é, uma quimera, como o deus do momento, já cresce a convicção de que, sem o Estado, não se vai a lugar algum. Na reunião do G-7 de 1997, destacaram-se dois temas: a necessidade de políticas de combate ao desemprego e de controle da especulação financeira mundial, certamente a serem implementadas pelo Estado.
O FMI, por sua vez, estuda a criação de um imposto para regular o movimento internacional do capital especulativo. Em sua reunião com o Banco Mundial, de abril de 1998, esse tema ocupou o centro do debate. Igualmente, o banco central dos bancos centrais, o Banco de Compensações Internacionais (BIS), com sede na Suíça, exigiu em seu relatório anual divulgado em junho de 1998 uma maior regulação dos mercados financeiros. Até o megaespeculador George Soros, talvez apavorado diante da perspectiva de perder tudo, tem advertido contra os prejuízos da ausência de controle para o movimento especulativo internacional.Não é um mero acaso que, depois de haverem decretado a morte de Keynes, esses adoradores do mercado agora ressuscitam a antiga tese keynesiana de que se deveria impor freios, "em primeiro lugar, à movimentação livre dos capitais financeiros na órbita internacional" (cit. in Belluzzo, L.G.
O novo papel do estado frente à globalização, Recife, Sudene, 1997, p.87). A crise cobra seu preço e faz a realidade se impor sobre os arremedos de ideologia construídos sem qualquer fundamento no mundo real.Na realidade, até esses adoradores do mercado nunca abdicaram do papel do Estado. O problema é que o têm usado, não para alavancar a economia real, mas para aumentar e proteger a riqueza financeira dos especuladores, como foi o caso do PROER adotado pelo governo de FHC no Brasil.
O programa adotado no Japão - investimento público, redução de juros, redução de impostos de empresas produtivas, aquisição de ações dos bancos, desvalorização da moeda - indica uma direção mais próxima de um caminho capaz de abrir um novo horizonte de desenvolvimento. O problema é que, ao não criar um dique contra a especulação financeira global em que se meteram os bancos e as grandes empresas do país, essas medidas terminam desaguando em mais dinheiro nas burras dos especuladores. Para controlar essa sanha especulativa, não basta, portanto, reduzir os juros, injetar dinheiro na economia ou adquirir ações dos bancos privados, pois eles usam esses recursos para aplicar no mercado financeiro internacional. Parece que o governo japonês começa a dar-se conta dessa verdade, ao decidir criar um banco público, com capital de US$ 125 bilhões, para garantir o financiamento das indústrias tidas como saudáveis e assumir o controle de parte dos bancos em dificuldades. Além disso, segundo o jornal inglês "Financial Times", cresce no partido governista japonês (PLD) a convicção de que se deve controlar a saída de capitais do país. O deputado Yuji Tsushima declarou ao jornal: "a maioria dos parlamentares do PLD sente que há necessidade de controles sobre a saída de capital para evitar um círculo vicioso de desvalorização da moeda".
Isso prova que só os Estados nacionais que conseguirem controlar, efetivamente, seu sistema financeiro (em lugar de serem controlados pela oligarquia financeira, como atualmente) poderão construir um dique contra a especulação. O saneamento financeiro que daí se derivaria teria, ademais, a faculdade de liberar o Estado da imensa carga financeira a que vem sendo submetido, além de liberar os recursos para o investimento produtivo. E ainda com a vantagem do desaparecimento da oligarquia financeira, coisa que, aliás, certamente ninguém lamentaria, pois se trata de um setor de classe que já não tem qualquer função social, vivendo do parasitismo sobre o conjunto da sociedade. A saída, portanto, é mais, e não menos, Estado.
O Estado não realizará a salvação definitiva do capitalismo - até porque isso é impossível -, mas permitirá que ele possa seguir funcionando pelo tempo que lhe resta, ao mesmo tempo em que ajudará a preparar dias melhores. O keynesianismo - isto é, a ação do Estado sobre a economia -, como necessidade intrínseca do capitalismo, antes e agora, não morreu, como apregoaram os arautos do caduco neoliberalismo.
A realidade, ao contrário, exige mais keynesianismo, uma espécie de ultrakeynesianismo, já que os Estados nacionais, hoje altamente endividados, só poderão voltar a cumprir seu papel se controlarem seus respectivos sistemas financeiros. Além disso, dados os riscos inerentes às pesquisas nas áreas de tecnologias de ponta, que afugentam as empresas privadas, só o Estado poderá bancar os investimentos necessários às novas descobertas e, portanto, aos avanços tecnológicos indispensáveis à retomada do crescimento. E só a ação estatal consciente e planejada poderá, também, fazer com que os avanços tecnológicos e os recursos existentes e a serem criados - hoje esterilizados na especulação financeira e na corrida armamentista - possam ser canalizados para o desenvolvimento da produção e para o desenvolvimento do ser humano, isto é, para o bem-estar da Humanidade.
Em suma, fazer a economia voltar-se a favor do ser humano, e não contra ele, como ocorre nestes tempos de domínio dos monopólios e da oligarquia bélico-financeira.Em suma, o mercado está desaparecendo e seu lugar está sendo ocupado pelos monopólios, que, em sua sanha de enriquecimento a qualquer custo, estão comprometendo o futuro da Humanidade.
Chegou o momento de o Estado, como instrumento da consciência coletiva, ocupar o lugar dos monopólios e iniciar a construção de um novo mundo.Só a ação estatal, por não estar limitada pela ganância do lucro, será capaz de canalizar para a produção a imensa massa de recursos excedentes que existem hoje no mundo e ao mesmo tempo fazer desabrochar o imenso potencial tecnológico já acumulado, permitindo um amplo processo de desenvolvimento econômico e garantindo, a partir daí, uma melhora substancial do bem-estar da Humanidade.
A tecnologia será utilizada, não para desempregar o trabalhador e trazer mais tormentos para suas famílias, mas para garantir a melhoria de seu padrão de vida. Sendo um Estado da maioria e não de um punhado de magnatas das finanças, como sucede hoje, ensejará um amplo processo de democratização da sociedade. E, assim, seriam liberadas as amarras, expressas na ganância de uns poucos parasitas, que estão bloqueando um amplo processo de desenvolvimento econômico, social, político e cultural da Humanidade.
Vimos, por outro lado, que, em sua busca ensandecida de monopolizar os mercados, as fontes de matérias primas e a força de trabalho do mundo, a oligarquia financeira dos países centrais está promovendo a devastação das nações menos desenvolvidas, ao mesmo tempo em que fortalece seu próprio Estado nacional, que pretende transformar em Estado de toda a região que quer monopolizar. Esse processo, se num primeiro momento vem a favorecer os monopólios dos países centrais, termina por prejudicar o conjunto da economia mundial, na medida em que, ao destruir as economias menos desenvolvidas, estrangula ainda mais o já limitado mercado mundial.Um desenvolvimento duradouro, que beneficie os povos do mundo, exige, portanto, o fortalecimento das nações do Terceiro Mundo, e não o seu desaparecimento, como querem os apóstolos do neoliberalismo.
Isso significa reconstruir as bases econômicas nacionais - indústria, estatais, empresas nacionais, institutos tecnológicos, etc. - que estão sendo destruídas por essa sanha dos cartéis imperialistas. Não se trata, evidentemente, de isolar cada nação do resto do mundo. O que leva ao isolamento é precisamente a política de destruição das nações mais débeis, pois, certamente, é impossível a confraternização do lobo com o cordeiro. O justo anseio de aproximação dos povos passa pelo fortalecimento - e não pelo debilitamento - de suas nações. Só nações fortes podem realizar um justo intercâmbio entre si, o que será uma importante mola propulsora do desenvolvimento.
O fortalecimento das nações mais débeis e de seus respectivos Estados, isto é, o fortalecimento dos Estados nacionais, é um instrumento decisivo para a construção da nova etapa do desenvolvimento. Isso só não interessa aos parasitas que dominam o capital financeiro especulativo dos países centrais, que querem dominar o mundo a partir de seus próprios Estados nacionais.
O isolamento crescente dessa oligarquia e a crescente consciência e unidade dos povos, que já vêm ocorrendo nesse período de putrefação da ordem imperial de pós-guerra, é a base fundamental para a construção de um novo mundo. A contradição do mundo de hoje é esta: de um lado, a Humanidade e, de outro, a moribunda oligarquia bélico-financeira especulativa que parasita o mundo; em suma, entre a vida e a morte